Cães são “coisa” ou “gente”?

Na verdade, nem uma coisa, nem outra: cães não são “coisa” nem “gente”. Entenda por quê.

Um projeto de lei está transitando no Congresso Nacional desde 2015. Proposto pelo senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), o PL, já aprovado pelo Senado da República (e transitando na Câmara dos Deputados), altera o status dos animais de estimação. Nas disputas nos tribunais, cães e gatos (os pets mais populares) deixariam de ser tratados como “coisas” – objetos de disputa entre os litigantes – e passariam a ser encarados como “seres de valor imaterial”.

Nada mais justo. Cães são seres vivos e, portanto, dotados de dignidade. Não devem ser tratados como “coisa”. No entanto, eles também não podem ser tratados como “gente”. Gente são seres humanos, não os caninos. Para o bem e para o mal, nós estamos no topo da cadeia biológica.

O rigor da lei

Por enquanto, por falta de legislação específica, os cães são tratados como patrimônio material em casos de divórcio, por exemplo. Já existem disputas pela guarda dos animais e até mesmo pelo pagamento de pensão alimentícia. Por enquanto, as decisões estão sendo tomadas a partir de aspectos práticos: o cônjuge com melhores condições financeiras leva o pet para casa.

Quanto à pensão alimentícia, a maioria dos (poucos) pedidos já apresentados à justiça foi indeferida. O entendimento dos juízes tem sido que apenas seres humanos – os filhos menores de idade ou portadores de necessidades especiais – têm direito ao benefício.

Mas há exceções. Um ex-marido que, ao celebrar o pacto pré-nupcial, definiu que os dois cães do casal ficariam com a esposa em caso de separação, não encontrou facilidades no tribunal, que definiu uma pensão de R$ 250 mensais para cada um dos pets. Os nomes dos envolvidos estão protegidos pelo segredo de justiça.

Coisas e gente

Seja como for, estas disputas parecem tipicamente humanas. Os cães não têm como manifestar sua preferência pelo pai ou pela mãe – ao menos, não em um tribunal. A decisão de recorrer à justiça parece ter base mais nas brigas dos casais do que na satisfação das necessidades dos pets.

Tratar cães como gente, porém, pode ser bastante problemático, de acordo com psicólogos e outros pesquisadores do comportamento humano. Pessoas que apresentam depressão ou um grau de carência muito elevado são mais predispostas a desenvolver o apego excessivo a seus pets, inclusive negligenciando a vida social.

Os estudos indicam um raciocínio simples: os humanos não conseguem viver sem dedicar afeto (ou vivem em péssimas condições emocionais). Os seres que não conseguem estabelecer vínculos duradouros amorosos ou de amizade tendem a compensar esta necessidade no relacionamento com seus cães. Isto não é bom para nenhum dos dois lados.

Caninos humanos

Nada mais natural do que encarar os cães como membros da família. Afinal, eles se aproximaram dos humanos há milênios, demonstrando amor, fidelidade, lealdade e disposição para encarar as mais diversas tarefas: do combate em batalhas à convivência tranquila dentro de casa. Sem sombra de dúvida, cachorros e humanos formaram – e continuam formando – uma bela dupla.

Já está comprovado: nós amamos crianças e cães da mesma forma. Ao menos, é o que confirmam os testes com nossos hormônios. A ocitocina é o hormônio que desperta sensações de apego (ele é liberado quando encaramos ou tocamos as pessoas a quem amamos; isto acontece logo depois do parto, por exemplo, e fortalece os laços entre mãe e filho).

Um estudo realizado pela Universidade de Azabu (Japão) em 2015 demonstrou que a liberação da ocitocina também ocorre – em graus diferentes – quando falamos de nossos cães e principalmente quando eles olham nos nossos olhos. Os mais apegados aos pets foram os que liberaram maiores quantidades deste hormônio.

Amor demais

Conversar com os cães é uma atitude corriqueira. Falar sobre eles com amigos também é natural. Permitir que o pet seja o tema central ou único das conversas, impedindo qualquer outro assunto, no entanto, começa a ser patológico.

Em uma reunião de cinófilos (pessoas que adoram cães), falar sobre os pets é quase obrigatório. No entanto, torná-los tema exclusivo nos bate-papos com colegas de trabalho, nos transportes, em qualquer lugar que seja, demonstra o problema, que é a fixação do assunto (um monoideísmo), condição que afasta colegas e amigos da nossa convivência.

Ou talvez seja exatamente o contrário: a timidez excessiva conduz à falta de amigos, determina uma relação de exclusividade do tutor com o seu cão e gera o isolamento – que não é um fato saudável nem para um, nem para o outro.

Algumas situações beiram o bizarro: a bilionária americana Leona Helmsley legou a sua fortuna de US$ 12 bilhões para a sua cadelinha Trouble. O dinheiro evidentemente será gasto pelos tutores do pet.

O site marryyourpet.com oferece casamentos entre tutores e seus cães, inclusive com cerimônias e certidões de casamento (que não têm nenhum valor legal). Já foram celebrados vários “matrimônios”.

Não é necessário chegar a tais extremos. Está claro que muitos de nós estamos nos relacionando emocionalmente com os nossos cães e eles estão cada vez mais se tornando nossa fonte exclusiva de apoio, sinal de que algo está errado.

Evoluindo sempre

Apesar de nos acompanhar desde a noite dos tempos, os cães tiveram os relacionamentos com os humanos alterados profundamente a partir da Revolução Industrial (século XIX). Até então, os animais tinham de trabalhar muito para viver: éramos os patrões, ainda não éramos os pais.

Com a industrialização, houve um êxodo do campo para a cidade. Os cachorros perderam boa parte dos empregos no pastoreio, caça, condução de carros, etc. Este fato, no entanto, não provocou a extinção da espécie, nem um aumento da população de cães selvagens.

No ambiente urbano, os cães mais dóceis e gentis com os humanos foram os que se deram melhor. Em poucas décadas, livres do trabalho agropecuário, muitos deles se tornaram cães de companhia e de passeio. Ganharam conforto, mas perderam saúde.

Os bibelôs

As primeiras exposições de cães tiveram início na década de 1870, na Inglaterra. As premiações eram feitas por raça, fato que estimulou o desenvolvimento de novas raças, para alegria dos seus proprietários. Estas especializações, no entanto, geraram uma série de doenças congênitas.

O boxer é muito suscetível à epilepsia; buldogues e pugs, aos problemas respiratórios; os grandes molossos, à displasia coxofemoral. A convivência mais próxima com os humanos também gerou outras necessidades: mais tempo com a família provocou crises de ansiedade em diversos cães, que podem ser responsáveis não apenas por longas horas de latidos e ganidos, mas também por problemas cardiovasculares, entre outros transtornos.

Um estudo publicado em 2015 pelo Journal of Social Behaviour afirma que 14% dos cães sofrem da síndrome da separação, um transtorno que torna virtualmente insuportável o afastamento do dono. Isto significa um número oito vezes maior do que os humanos portadores de transtornos mentais: apenas 1,5% da população mundial. Outro fato alarmante: um terço dos cães apresenta sobrepeso ou está com obesidade.

Novamente, amor demais

Se encarássemos nossos pets como eles realmente são: caninos, eles seriam mais saudáveis e mais felizes. Em vez de termos aumentado exponencialmente a dependência dos cães, teríamos companheiros brincalhões, fiéis e leais – que, afinal, é o que sempre esperamos deles.

Talvez seja o momento de repensarmos nossa atitude: podemos tratar nossos cães com amor e respeito. Aliás, devemos fazer isto. Transformá-los em muletas psicológicas para sanarmos nossos transtornos emocionais é perigoso e inútil para ambos.

O ideal é deixar que eles sejam cães, brinquem conosco e também com outros cachorros (e até com gatos, por que não?). eles continuarão nos amando e nos compreendendo como sempre, mas precisamos encontrar formas mais saudáveis de compensar as nossas carências e frustrações.

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