O salvador de cães

Homem arrisca a vida para salvar centenas de cachorros do mercado negro de carne na China. Conheça o salvador de cães.

Entre a administração de uma pet shop, chamada Pet Restaurant, e de um abrigo para animais, o havaiano Marc Ching, de 37 anos de idade, faz visitas frequentes a diversos locais da Ásia. O motivo, no entanto, não é lazer ou negócios: o propósito de Ching é resgatar animais do mercado negro de carne. Ele é o salvador de cães.

Em 2011, Ching inaugurou a Fundação para Esperança e Bem-Estar dos Animais, em Honolulu, dedicada à recuperação de cães rejeitados ou abusados (inclusive com terapias à base de ervas fitoterápicas). A fundação acolhe os pets, providencia tratamento veterinário, vacinas, vermifugação e castração, para posterior adoção.

salvador-de-caes-1
Marc Ching, o salvador de cães – Foto: Ted Soqui

O Festival da Carne de Cães

Quatro anos depois, o salvador chinês de cães teve conhecimento de um evento que pode soar macabro para os ocidentais: o Festival de Carne de Cães de Yulin, uma cidade de mais de 6,5 milhões de habitantes, no sudeste da China.

Aproximadamente dez mil cães e gatos são sacrificados nesta festa anual que dura dez dias. Ativistas de direitos dos animais afirmam que o tratamento oferecido é desumano, desde a caça até o debate. A tradição de comer pets na China, no entanto, já existe há 500 anos. Outros países, como as duas Coreias, Camboja, Vietnã e Laos, também usam cães e gatos na gastronomia.

O Festival de Yulin tem início no solstício de verão (21 de junho, no hemisfério norte). Os consumidores de carne de pets afirmam que ela é refrescante e que os animais são bem tratados. Filmagens e fotos, no entanto, mostram os animais confinados em pequenas gaiolas, sem troca de água e com pouca comida. Acredita-se que parte dos cães sejam animais de estimação roubados de seus donos.

A venda de carne de cachorro é legal na China; estima-se que 10 milhões de animais sejam sacrificados a cada ano (um milhão apenas na China). No entanto, pesquisa realizada pela agência estatal de notícias Xinhua demonstra que 64% da população entre 16 e 50 anos quer o fim do festival. Outros 51% querem o fim do comércio de carne de cães e 50% afirmam nunca ter provado a “iguaria”.

A descoberta de Ching provocou mudanças radicais na vida do salvador chinês de cães e na sua fundação. A abuso é tão brutal que não existe nada na América que possa servir como termo de comparação. Depois de viajar para Yulin e constatar a crueldade com os próprios olhos, Ching decidiu que não poderia deixar os animais à própria sorte.

salvador-de-caes-2
Annie, uma sobrevivente do comércio sul-coreano. Teve a perna cortada em um matadouro. – Foto: Ted Soqui

Algumas culturas orientais ainda acreditam que a adrenalina torna a carne de cães mais saborosa e proporciona alguns benefícios à saúde humana. Por isto, antes de serem abatidos, os animais são acossados e injuriados, para que tentem (sem sucesso) se defender. Não existe nenhuma comprovação científica a respeito destes benefícios: é pura crendice.

Este comércio, de acordo com Ching, é alimentado pela crença de que as agressões e torturas melhoram o gosto da carne de cães. A população compra o alimento regularmente e os animais continuam sofrendo severos maus tratos. A divulgação parece estar dando resultados (apesar de lentos): Wendy Higgins, da Humane Society International (HSI), afirmou que o consumo da carne teve uma redução de 10% no festival deste ano.

Entre os métodos de abate, incluem-se:

  • espancamento com bastões metálicos;
  • fogo na pelagem;
  • afogamento;
  • introdução de agulhas e estacas.

A campanha para pôr um ponto final no Festival de Yulin fazer parte de uma campanha mais ampla pela aprovação de leis rígidas para coibir a violência contra cães e gatos. Um projeto de lei que criminaliza os maus tratos está emperrado no Legislativo chinês há anos; prisões e processos contra ladrões de animais (e também sobre o transporte irregular) são muito raros.

Apenas na China e na Coreia do Sul há projetos tramitando para reduzir a violência contra cães e gatos. Na Coreia do Norte e nos países da Indochina, o comércio de carne de animais de estimação é praticado livremente em mercados e feiras livres.

Lucky foi resgatado minutos antes de ser morto. - Foto: Ted Soqui
Lucky foi resgatado minutos antes de ser morto. – Foto: Ted Soqui

Os animais caçados nas ruas ou roubados das casas, em maioria, não apresentam boas condições de saúde. Muitos cães têm hidrofobia (raiva) e acabam transmitindo a doença para humanos. Yulin está entre as dez cidades chinesas com o maior número de casos.

As viagens

Desde 2015, Ching já realizou seis viagens para a Ásia – e a sétima, como destino a Phnom Penh (capital do Camboja) já está sendo organizada. Nas suas abordagens, o salvador de cães finge ser um negociante americano de carne de cães e visita abatedouros, pedindo amostras do alimento.

Ching com o Jack que está aguardando adoção. Foto: Ted Soqui
Ching com o Jack que está aguardando adoção. Foto: Ted Soqui

Felizmente, o exemplo de Ching tem influenciado positivamente outros ativistas dos direitos dos animais de estimação. Entre os oponentes dos abusos – com o Festival de Yulin incluído – estão alguns astros de Hollywood, como Matt Damon, Joaquin Phoenix e Rooney Mara, que já gravaram comerciais apelando para o fim da tortura e morte.

Uma vez que os cães estejam a salvo, Ching e sua equipe colocam os animais em “esconderijos” seguros e posteriormente os “contrabandeiam” para os EUA, onde os pets recebem tratamento veterinário e todo o amor que merecem.

2 Comentários

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *