A triste história da cadela explorada para “produzir” filhotes

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Sabrina é uma cadela que passou toda a vida adulta “produzindo” e alimentando filhotes. 

Sabrina nunca conheceu uma relação positiva com humanos. Desde que atingiu a maturidade sexual, ela foi explorada com acasalamentos sucessivos, para “produzir” mais e mais filhotes. Quando não estava cuidando das crias, esperando um novo cruzamento, ela passava o tempo acorrentada. 

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A cadela viveu em péssimas condições de higiene, recebendo alimentação inadequada ou insuficiente, sem estímulos para o desenvolvimento emocional. O objetivo dos criadores era obter filhotes para venda – um verdadeiro caso de escravidão. 

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A história 

Os tutores de Sabrina, um pitbull abricó black nose, obrigaram a cadela a cruzar dezenas de vezes em poucos anos. Apesar dos maus tratos e da violência, este não é um fato incomum: muitos criadores inescrupulosos abusam das gestações sucessivas, com um único objetivo: o lucro. 

Em muitos casos, são usados cães consanguíneos (pais, irmãos, etc.) nos cruzamentos, especialmente quando se quer obter uma característica específica. No caso de Sabrina, era o black nose, considerado um sinal de agressividade – nenhum estudo confirma, mas os pitboys acreditam que os cães de focinho preto são mais violentos. 

Quando finalmente foi resgatada, Sabrina estava doente, fragilizada, exausta e triste. Mantida permanentemente em cativeiro, ela não conhecia passeios, brincadeiras e diversões. Talvez a cadela quisesse apenas parar de sofrer, mesmo que isso significasse a morte. 

As sucessivas gestações de Sabrina provocaram lesões graves nos genitais e nas mamas. A cachorra desenvolveu piometra, uma infecção uterina provocada pela exposição do colo do útero, que fica suscetível à contaminação por vírus e bactérias. Nem assim, ela deixou de ser usada como matriz – termo usado para as fêmeas férteis empregadas nos cruzamentos. 

A cadela vivia no México – mas poderia viver na Austrália, do outro lado do mundo, que isso não mudaria nada: ela passava a maior parte do tempo acorrentada, para evitar fugas. Depois das denúncias de maus tratos, ela foi resgatada pela equipe do abrigo Caninos 911, de Villahermosa, cidade de mais de 300 mil habitantes no Estado de Tabasco, no sudeste do país. 

Quando finalmente se libertou do cativeiro, o estado de Sabrina era lastimável. Era possível ver as costelas saltando sob a pele. A cadela estava desnutrida e tinha medo de tudo: nos primeiros dias, não foi possível nem deixá-la no pátio do abrigo, para interagir com os outros animais. 

Mas, mesmo apavorada, Sabrina queria ser resgatada – sabe-se lá o que isso poderia dizer. Ela queria deixar aquele círculo vicioso de sofrimento, abuso e negligência. Quando os tratadores se aproximaram, ela não hesitou em acompanhá-los, deixando o canil para trás. 

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A avaliação veterinária requereu muita paciência. Sabrina fugia do médico, dos assistentes e tentava se esconder entre os móveis do consultório. Imobilizada na maca de exames, ela evitava o contato visual, um sinal evidente de que foi maltratada por um período considerável. 

Aos poucos, Sabrina finalmente começou a compreender que não havia mais motivos de pânico. Ela aceitou os primeiros carinhos – e retribuiu com muita gentileza. Quando entendeu que estava entre amigos, ela ofereceu a barriga; na linguagem significa, isso significa: “Eu sou de paz, não quero briga com ninguém, eu confio em você”. 

Mesmo assim, a cadela passou por um longo período. Ela teve de ser desparasitada e receber suplementos para recuperar o peso. Sabrina foi esterilizada e teve as infecções combatidas com antibióticos. Em alguns meses, ela finalmente se mostrou como realmente sempre foi: meiga, carinhosa e cheia de charme. 

Sabrina está pronta para recomeçar e as fotos da cadela já podem ser vistas nas páginas sociais do Caninos 911. A equipe do abrigo está empenhada em encontrar uma família carinhosa, que se disponha a receber a cadela e fazê-la recomeçar. 

As fábricas de filhotes 

Para aumentar os lucros, muitos criadores não respeitam o ciclo reprodutivo natural das cadelas, que costuma se estender por vários meses. Os vilões da história chegam a usar medicamentos para induzir a ovulação, tornando as fêmeas receptivas ao acasalamento. 

Os filhotes obtidos dessa maneira também sofrem. As crias nunca completam o ciclo de amamentação. Alguns são tratados com hormônios de crescimento, para parecerem maiores no momento da venda. Grande parte dos cãezinhos, no entanto, não resistem aos primeiros dias de vida. 

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Os candidatos a tutores quase sempre são atraídos pela internet, com fotos e vídeos. Esses canis não disponibilizam visitas, para que os interessados possam conhecer não apenas os filhotes, mas também os pais e as instalações em que são mantidos. 

Os preços são sempre muito atraentes, mas os compradores podem estar adquirindo animais frágeis, com doenças genéticas (especialmente quando são frutos de cruzamentos consanguíneos) ou problemas de desenvolvimento físico. 

Em comum, esses canis, que raramente são cadastrados nas associações cinológicas (como clubes de raças e a CBKC – Confederação Brasileira de Cinofilia) e, dessa forma, não podem emitir certificados como o pedigree, oferecem alimento escasso ou de má qualidade, péssimas instalações (pequenas demais, sujas, superlotadas) e falta de atendimento veterinário. 

Quem pretende receber um cão na família precisa estar ciente de que animais de raça são caros, criadores responsáveis têm uma série de custos, que naturalmente são repassados para os compradores. 

Isso não significa que quem não tem dinheiro – a maioria dos brasileiros – não possa ter um cão. Existem os cães de raça sem pedigree (os criadores não conseguem comprovar a linhagem e, por isso, vendem os animais por preços mais baixos) e também um imenso contingente de vira-latas. 

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