68 cachorros são resgatados do “festival da carne”

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Ao todo, 68 cachorros que seriam sacrificados no Festival de Yulin foram resgatados.

O Festival da Carne de Cachorro é um evento anual, celebrado em Yulin, na região autônoma de Quangxi, sudeste da China. As festividades fazem parte da comemoração do solstício de verão (no hemisfério norte), em 21 de junho. Em 2021, porém, 68 cachorros foram resgatados da morte.

As festividades acontecem desde 2009 e se prolongam por dez dias. entidades internacionais de defesa dos direitos dos animais estimam que entre 10 mil e 15 mil cães sejam abatidos em cada edição do festival.

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Créditos da Imagem: @hsiglobal/Facebook

O resgate

Neste ano, porém, ativistas da Humane Society International (HSI) conseguiram interceptar um lote de animais que estava a caminho de Guangxi. Apesar de os organizadores do festival alegarem que se tratava de cachorros criados para abate, os voluntários perceberam que os 68 cães aparentavam ter sido raptados.

Os animais resgatados davam a pata e tentavam interagir com o grupo de resgate, demonstrando terem convivido anteriormente com humanos, como animais de estimação (e não como gado).

Os 68 cachorros encontrados pela seção chinesa da HSI estavam muito ansiosos e estressados, provavelmente em função do fato de terem sido roubados de seus tutores e também das más condições de transporte. A maioria apresentava más condições de saúde.

Em entrevista ao South China Morning Post (um jornal em língua inglesa que circula em Hong Kong), um membro da HSI afirmou que os ativistas se viram forçados a confiscar os 68 cachorros por conta própria: as autoridades locais declararam que não tinham condições de auxiliar no resgate.

Outro participante da ação declarou para a reportagem: “os cães são membros de família, eles não são comida; por isso, temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para acabar com este festival macabro”.

Cachorros são resgatados do “festival da carne”
Créditos da Imagem: @hsiglobal/Facebook

O caminhão que transportava os 68 cachorros foi interceptado nos arredores da cidade. Os animais estavam presos em gaiolas enferrujadas e muitos apresentavam escoriações, contusões e até fraturas.

O que mais impressionou a equipe de resgate foi que alguns animais ofereciam a pata, em um gesto parecido com um “take five”, forma tradicional de cumprimento em que as pessoas batem as mãos espalmadas.

Mas, mesmo que não se tratasse de animais de estimação, os cachorros não mereceriam ser transportados em condições tão inadequadas. Na verdade, eles não deveriam ser sacrificados para consumo, já que a pecuária chinesa produz outras fontes de proteínas.

A denúncia da HSI é clara. As autoridades chinesas, especialmente no sul do país, precisam se esforçar realmente para acabar com o consumo de carne de cachorro. No mínimo, elas deveriam certificar-se de que apenas animais criados para abate, em condições de higiene, sejam oferecidos para a população.

Ao contrário do que os manifestantes esperavam, a polícia de Yulin não se envolveu em nenhuma etapa do resgate dos cachorros. Os ativistas tiveram de interceptar o caminhão, apreender os animais e levá-los para um local seguro.

De acordo com a página da HSI no Facebook, os cachorros sobreviventes foram levados para um abrigo, onde estão se recuperando, recebendo cuidados veterinários, alimentação e água.

O festival da Carne de Cachorro

A festividade ocorre desde 2009, no início do verão na China. A data é comemorada por diversas culturas no mundo inteiro desde tempos remotos, mas, em Yulin, as celebrações são acompanhadas por um festival gastronômico em que a carne de cachorro é o ingrediente principal.

O Festival da Carne de Cachorro não conta com as autoridades de Yulin no planejamento. Os moradores da cidade organizam as barracas, preparam a carne de cachorro e afirmam que, com isso, atraem grande número de turistas anualmente.

Cachorros são resgatados do “festival da carne”
Créditos da Imagem: @hsiglobal/Facebook

O consumo de carne canina é corriqueiro na China há pelo menos quatro mil anos, de acordo com registros históricos e arqueológicos. Alguns manuais da medicina tradicional ensinam que a carne ajudaria a afastar o calor sentido nos meses de verão.

O festival, no entanto, é muito recente. Mesmo assim, tem enfrentado manifestações contrárias desde 2009. Em 2016, por exemplo, a Câmara de Representantes dos EUA aprovou uma resolução bipartidária que condena o festival e pede que a China proíba o consumo de carne de cachorro.

O consumo

De acordo com estimativas de entidades de defesa dos animais, cerca de dez milhões de cães e gatos são sacrificados anualmente para consumo na China (a grande preferência é pela carne canina, que corresponde a 80% do abate).

O consumo, no entanto, não é frequente em todo o país. O abate de cachorros é mais comum em Guangxi, Cantão, Guizou e algumas áreas do nordeste chinês. É possível que o hábito culinário tenha sido introduzido a partir de movimentos migratórios vindos da península coreana.

Cachorros são resgatados do “festival da carne”
Créditos da Imagem: @hsiglobal/Facebook

Em maio de 2020, o governo central chinês retirou os cachorros e gatos da lista oficial de animais que podem ser explorados para abate e consumo. A proibição veio na esteira da pandemia de Covid-19, que teria saltado para os humanos a partir de outras espécies animais.

O consumo não está formalmente proibido, mas não é permitido aos chineses vender cães vivos para abate, nem a carne desses animais. A medida afetou particularmente os restaurantes e mercados do sudeste o país.

Mesmo assim, e com advertências da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que o consumo de carne canina e felina comprovadamente contribui para disseminar doenças como raiva e cólera, as medidas chinesas não afetaram o Festival de Yulin, que foi celebrado pela população, apesar de protestos vindos de todas as partes do mundo.

Seja como for, a China tornou-se uma potência mundial, interferindo na economia planetária. Hábitos e tradições mantidos por séculos, enquanto o país se mantinha fechado, começam a atrapalhar os negócios.

Da mesma forma, os chineses vêm demonstrando cada vez mais afeto pelos animais de estimação – o movimento em pet shops aumenta a cada ano, de forma exponencial. No início de 2021, o Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China divulgou a seguinte declaração:

“Com o progresso dos tempos, as ideias da civilização e os hábitos alimentares das pessoas estão mudando e alguns costumes tradicionais também precisam mudar.”