Cadela sofreu parada cardíaca durante queima de fogos. Entenda a história.

Aconteceu na Argentina, na cidade de Esquel, Chubut, uma província da Patagônia, extremo sul do continente. A cadela Magui, uma boxer já idosa, não resistiu ao pânico causado por uma queima de fogos de artifício.

Cadela morre abraçada ao dono após queima de fogos
Foto publicação no Facebook

O caso aconteceu no dia 14/12/19, na casa da família de Antonella Modasjazh. De acordo com os tutores, o animal morreu depois de várias tentativas sem sucesso de contato com o veterinário. Magui morreu nos braços do filho mais novo de Antonella.

A família fez uma homenagem à cachorra Magui nas redes sociais. O post acabou viralizando (até a manhã de 19/12, já tinha mais de 14 mil compartilhamentos): “Era velhinha e tinha horror a fogos de artifício”, escreveu Antonella.

A repercussão

“Ela era a nossa mascote amada! O nome dela era Magui e ela acabou de morrer. Ela era velhinha e tinha pavor de fogos. Não sabíamos mais onde colocá-la. Enquanto os outros se divertiam, ela estava tendo um momento difícil. Ligamos para todos os veterinários para nos ajudar e nenhum atendeu! A cachorra morreu nos braços do meu filho, enquanto ele implorava que eu chamasse alguém para ajudá-la”, diz a mensagem publicada.

Voluntários da “Asociación Amigos de los Animales de Esquel” (ADAE), um grupo local de defesa dos direitos dos animais, compartilhou a mensagem da família Modasjazh no Facebook: “Magui perdió sua vida anoche, en Esquel, debido a la pirotecnia que usas sin parar”.

O post da ADAE segue explicando sobre a morte da mascote da família, que assistiu, impotente, desconsolada e angustiada, à injustiça feita com a cadela velhinha. “Esta família perdeu um integrante, um valioso integrante”, completa a nota, que registra o repúdio aos que causaram o trauma e se solidariza com os Modasjazh.

No dia 15/12, os voluntários da ADAE fizeram uma passeata no centro da cidade, convocando os moradores de Esquel e arredores (e seus pets) para protestar contra os efeitos dos fogos de artifício sobre os animais, os seres humanos e o meio ambiente.

Eles lembraram que a pirotecnia é uma atividade proibida por lei desde 2009, realizaram palestras educativas, sortearam brindes e, no final do ato público, pediram um minuto de silêncio em memória de Magui.

A legislação brasileira

No Congresso Nacional, tramita o projeto de lei 6.881/17, que proíbe o uso de fogos de artifício com estampido ou estouro em áreas públicas e privadas, abertas e fechadas. O PL foi aprovado pela Comissão de Meio Ambiente em março de 2019, mas ainda não foi discutido pela Comissão de Constituição e Justiça; depois desta etapa, deverá seguir para votação de em plenário.

Caso seja aprovado pelos deputados federais, o projeto ainda precisa ser avaliado pelo Senado Federal. Aprovado nas duas casas legislativas, ele seguirá para a sanção presidencial — um longo caminho a ser percorrido.

A proposta é de autoria do deputado Ricardo Izar (PP-SP) e prevê pena de três anos de reclusão, além de multa, para quem descumprir a proibição. Os fogos de efeitos visuais (chamados “fogos de vista”), sem estampido, continuam permitidos.

Em contrapartida, o Supremo Tribunal Federal suspendeu, em abril de 2019, uma lei paulista (já sancionada pelo governador) que proíbe os fogos com barulho. A decisão, do ministro Alexandre de Moraes, tem caráter liminar.

A legislação de São Paulo nasceu defeituosa: o texto da lei, de acordo com o STF, invadiu a competência da União, a quem cabe regular a fabricação, venda e utilização de material bélico.

Além disto, sempre de acordo com o STF, a norma “sacrifica de forma desproporcional o desenvolvimento da atividade econômica, repercutindo diretamente no comércio local”.

Outras cidades produziram legislação semelhante. No município de São Paulo, foi proibida a queima de fogos de artifício (mesmo com ruído considerado de baixa intensidade), mas manteve a permissão para a produção e venda.

No mundo todo, com exceção dos EUA, Alemanha e Japão, a regulamentação sobre fabricação, transporte, venda e uso de fogos de artifício é mínima, fato que deveria ser objeto de consideração e reflexão de juristas e constitucionalistas.

Fogos e animais

Para nós, seremos humanos, o barulho dos fogos de artifício, assim como o de qualquer explosão, incomoda e assusta. No entanto, em condições normais, sabemos que o barulho é devido a uma comemoração, a um trovão, a um pneu estourado — a qualquer situação que não gera pânico.

Animais como cães e gatos, no entanto, não sabem disso. Mesmo morando em casas seguras e confortáveis, eles não têm como avaliar o impacto de uma explosão, assim como não sabem que basta abrir a despensa quando sentem fome, ou o guarda-roupa, quando sentem frio.

Fogos de artifício barulhentos e bombas de guerra, para os nossos pets, significam a mesma coisa: é necessário se esconder e se proteger. A vida pode estar em perigo e, portanto, uma ação de emergência é necessária.

Assim como nós, os cachorros e gatos se preparam quando percebem uma situação de emergência — que pode ser a aproximação de um estranho, de outro animal, um carro “cantando pneu”, um trovão ou o barulho de fogos de artifício.

Em situações de emergência, o organismo aumenta a produção de adrenalina, hormônio usado para avaliar situações de risco. É a adrenalina que nos faz decidir rapidamente se é o momento de lutar ou correr.

A adrenalina acelera os batimentos cardíacos, o que lê à palidez, respiração ofegante e dilatação das pupilas. Isto ocorre para aumentar a produção de energia. Trata-se de uma emergência e o corpo precisa estar preparado para enfrentá-la — ou para fugir.

O barulho dos fogos de artifício deixa cães e gatos desesperados. Não são todos, mas a maioria sente medo, muito medo. A exposição constante pode prejudicar o coração e o sistema respiratório. Em condições extremas ou duradouras, pode levar à morte: foi isto que aconteceu com Magui.

Esteja preparado. A maioria dos pets sente medo, mas alguns podem entrar em pânico. Fique atento a estes sinais (não é preciso identificar todos), que podem indicar uma emergência veterinária:

  • ansiedade;
  • vômitos;
  • perda de controle dos esfíncteres (xixi e cocô só liberados sem que o pet consiga controlar);
  • taquicardia;
  • convulsões.

Em animais epiléticos, o barulho intenso agrava as crises convulsivas. Nos cardiopatas, a arritmia cardíaca é o sintoma predominante.

A queima de fogos não afeta apenas os animais de estimação. Nas zonas rurais, o barulho prejudica animais de criação (leite, ovos e abate) e todos os animais silvestres.

Eles sentem que uma catástrofe está se aproximando, mesmo quando o ruído é decorrente apenas da diversão de humanos. Um carro ou motocicleta com o escapamento aberto já é suficiente para o estado de alerta; imaginem os efeitos de uma queima de fogos de cinco minutos.

O que fazer?

Nem sempre é possível prever uma queima de fogos. Em finais de campeonato, em disputas esportivas clássicas e durante as festas de final de ano, no entanto, é preciso tomar alguns cuidados.

A primeira providência dos tutores é providenciar um lugar tranquilo, com as portas e janelas fechadas (cães e gatos nos observam quando, à noite, fechamos a casa, e associam este procedimento a algum tipo de proteção).

Deixe os pets por perto e aja com naturalidade (se você também sente medo, tente disfarçar ao máximo, para não “contaminar” os pets). Use brinquedos e petiscos para desviar a atenção nos fogos.

O barulho pode levar cães e gatos a procurar refúgio em qualquer lugar. Gatos podem tentar escalar móveis altos e cachorros, enfiar-se em qualquer lugar que lembre uma toca protegida.

Leia também: Truque do pano: Proteja seu cachorro dos fogos de artifício

Se possível, treine-os para “ir para o abrigo”: embaixo da cama, do sofá ou dentro de uma caixa de papelão. De qualquer forma, bloqueie qualquer rota de fuga: gatos podem despencar de varandas e cachorros podem disparar pelas ruas.

Não mês com eles enquanto o barulho perdurar. Fique por perto, mas não tente retirá-los de um lugar que eles consideram seguro. Mantenha a rotina e traga as tigelas de água e ração para perto.

Dê medicações apenas caso tenham sido receitada pelo veterinário. Evite aquele remedinho leve que “acalma o cachorro da vizinha”. Cada animal tem personalidade própria e reage de forma diversa. Lembre-se: medicamentos homeopáticos e florais não surtem qualquer efeito imediato sobre a ansiedade dos pets.

No dia a dia, procure associar o barulho dos fogos de artifício a brincadeiras. Faça uma “trilha sonora” de rojões, girândolas e bombas para os momentos de jogos e correrias. Na internet, é possível baixar diversos tipos de ruídos.

Provavelmente, o seu pet continuará sentindo medo de barulhos muito altos, mas ele associará os ruídos com atividades prazerosas. É algo como se ele pensasse: “está tudo errado, mas está tudo certo”. Ele ficará menos ansioso.

Alguns cães e gatos não dão a mínima atenção ao ruído dos fogos de artifício. É provável que, se estivessem na natureza, eles fossem os primeiros a sofrer os efeitos de um temporal ou de uma avalanche. Como estão seguros em casa, no entanto, este traço de personalidade é uma verdadeira bênção.

Estes são medos atávicos, ancestrais. Fazem parte do mesmo mecanismo que nos faz virar para o lado quando uma sombra impede momentaneamente a passagem do sol, mesmo que seja apenas um pássaro voando do lado de fora. É este mecanismo que nos manteve vivos em milênios de evolução.

Por outro lado, a grande maioria sente muito medo e pode entrar em pânico. Um transtorno de ansiedade compromete a qualidade de vida e prejudica a saúde física e emocional, podendo provocar a morte.

Vale lembrar: o pânico é um tipo de medo não justificado, mas nem por isto menos intenso e com menos efeitos colaterais.

Enquanto os fogos continuam na legalidade, aproveite para pressionar os seus representantes (nas câmaras municipais, assembleias legislativas e no Congresso Nacional). Não é necessário excesso de barulho para a diversão sadia.


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