Autoridades chinesas sinalizaram um novo entendimento sobre o consumo de carne de cachorro. Confira.

No início de abril de 2020, o Ministério da Agricultura da China anunciou a retirada dos cães e gatos da relação de “animais comestíveis”. A partir de agora, os nossos conhecidos companheiros passam a receber o status de “animais de estimação” no país do Extremo Oriente. O anúncio pode significar, no médio prazo, a proibição do consumo de carne de cachorros e gatos, considerados iguarias pelos chineses.

A notícia chega na esteira das muitas más notícias sobre a propagação da Covid-19, pandemia que já matou milhares de pessoas no mundo inteiro e teve origem na Província de Hubei, na China. Alguns cientistas entendem que o SarsCov-2, vírus responsável pela nova síndrome, pode ter saltado de outras espécies para a humanidade.

China sinaliza proibir o consumo de carne de cachorro e gato – Foto: Cachorro preso na China (Jie Zhao/Getty Images)

A proibição do consumo de carne de cachorro e gato

Logo depois do anúncio da mudança de status, de “animais destinados à pecuária” para “animais de companhia e estimação”, a cidade de Shenzhen, da Província de Guangdong – uma das maiores do país – decidiu proibir o abate de cães e gatos para consumo humano.

A comunidade internacional reagiu positivamente à “orientação” do governo chinês. Apesar de ser uma prática cultural, o consumo da carne de cachorros e gatos nunca foi bem visto pelo Ocidente e, desde os anos 2000, quando a China abriu-se para o comércio mundial, turistas a passeio e a negócios ficam horrorizados com estes hábitos alimentares.

Por outro lado, o governo chinês, apesar de centralizado e extremamente autoritário, sabe que não pode simplesmente proibir o consumo “exótico”. Cabe às autoridades locais a fiscalização dos mercados e restaurantes e apenas as prefeituras reúnem condições efetivas para barrar a utilização de animais considerados de estimação nas cozinhas particulares e públicas das cidades.

O Ministério da Agricultura chinês também “orientou” a população a se abster da carne de animais silvestres, mas anfíbios e de alguns répteis, especialmente as tartarugas e sapos, continuam livres para figurar nos cardápios.

Animais e doenças

O governo chinês já conseguiu equacionar a epidemia da Covid-19 – o número de infectados no país vem caindo dia a dia, ao contrário do que ocorre em outras partes do mundo. No entanto, o país ficou marcado como “epicentro da pandemia” e, com ou sem razão, um dos motivos apontados para o surgimento do novo coronavírus é o consumo da carne de animais silvestres.

Atualmente, sabe-se que os gatos (e outros felídeos, como os tigres e leões do Zoológico de Nova York, EUA) são especialmente suscetíveis ao SarsCov-2,mas alguns cães e lobos também foram infectados. A China quer, com a nova orientação de hábitos alimentares, afastar-se da acusação de ter produzido os vírus e nada ter feito para impedir a propagação a tempo.

Efetivamente, alguns vírus e bactérias que infectam animais domésticos e silvestres também podem afetar seres humanos. É o que ocorre, por exemplo, na transmissão da peste bubônica e da leishmaniose. O que ocorreu com o novo coronavírus, no entanto, foi a mutação de subtipos já conhecidos para uma variedade potencialmente fatal, que se alastrou nas populações humanas e começa a afetar também algumas outras espécies animais.

A orientação do governo chinês

O governo chinês não proibiu formalmente o abate de cães e gatos. O hábito sempre existiu entre os chineses e foi ampliado no final da década de 1940, quando 45 milhões de chineses morreram de inanição ou destruição. O período passou para os anais da história como “a grande fome”.

Entre 1948 e 1952, o governo revolucionário centralizou a produção de alimentos: todos podiam (e deviam) plantar, mas o resultado da produção deveria ser entregue às novas autoridades do país. Até mesmo cozinhar em casa passou a ser proibido.

O resultado da coletivização foi um estrondoso massacre. Sem ter o que comer, muitos camponeses chineses apelaram para a caça e a coleta – uma regressão de mais de quatro mil anos. A partir de então, o consumo alimentar de ursos, crocodilos, tartarugas, pangolins, morcegos e muitos invertebrados (como escorpiões e aranhas), tornou-se cada vez mais comum. Cães e gatos, que estavam mais próximos, foram os primeiros a ir para a panela.

Gradualmente, surgiram mercados nas vilas e aldeias, onde caçadores e coletores comercializavam a carne com as populações locais. Estes estabelecimentos se tornaram populares e são parte importante da economia do país, mas as iguarias oferecidas são intragáveis para a maior parte dos humanos e as regras de higiene sanitária deixam muito a desejar: este é um dos motivos por que especulou-se que o novo coronavírus pudesse ter tido origem nesta prática comercial.

Desta forma, algumas gerações nasceram e cresceram habituadas ao consumo e não veem problemas com isso. Mas, se a China quer manter a posição conquistada no cenário internacional, o país não pode dar demonstrações de hábitos criticados ou condenados pelas outras nações. Portanto, o governo chinês orientou a população a deixar os cães e gatos fora da cozinha. E, desde que haja oferta de carnes bem recebidas pelo paladar ocidental, a orientação tem tudo para dar certo. Vale lembrar, por exemplo, que a China é o maior importador de carne suína produzida no Brasil.

As autoridades chinesas apelaram para um tom emocional ao divulgar a nova lista de “animais comestíveis”. Han Changfu, ministro da Agricultura e dos Assuntos Agrários, afirmou que, “com o progresso da civilização humana e a preocupação pública com a saúde e bem-estar dos animais, os cachorros e gatos passaram de animais domésticos tradicionais para animais de companhia”.

Ele continuou, certamente atento ao noticiário internacional e à repercussão: “cães geralmente não são considerados comida no mundo inteiro e a China não deve administrá-los como faz com os animais destinados à pecuária”.

Em 20/04/20, em Pequim, o ministro afirmou, em videoconferência, que as empresas agrícolas chinesas já retomaram as atividades de maneira ordenada e a produção está se ampliando de forma acelerada. O dirigente também disse que a importação de itens como carne, soja e açúcar está sendo estabilizada e eliminou qualquer possibilidade de desabastecimento do mercado interno.

Por enquanto, o documento está disponível para consulta pública até o dia 08/05/20. A partir desta data, a orientação passará a ser discutida pelos representantes, que deverão redigir uma nova legislação sobre o assunto. É possível que, em alguns meses, o abate de cães e gatos para consumo seja formalmente proibido na China. Ponto para os pets do mundo inteiro e para os humanos que amam os animais.

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