Com a pandemia do coronavírus, em Shenzhen está proibido o consumo de carne de cães e gatos.

Shenzhen fica na Província chinesa de Guangdong. A cidade, com 12,5 milhões de habitantes, faz parte da região metropolitana do vale do rio das Pérolas e faz fronteira, ao sul, com Hong Kong. O município é um importante polo de tecnologia mundial, chamado localmente de “Vale do Silício chinês”. Shenzhen decidiu proibir o abate e consumo de animais domésticos (para nós), como cães e gatos.

O decreto faz parte de uma estratégia política mais ampla, que também restringe, desde fevereiro de 2020, o comércio de animais silvestres para consumo (estão fora da restrição as tartarugas e os sapos). É mais uma tentativa para conter o avanço da pandemia da Covid-19, causada pelo novo coronavírus, classificado em dezembro de 2019, também na China.

A fiscalização municipal terá poder para apreender e multar estabelecimentos que estoquem e comercializem a carne de cães e gatos. As multas anunciadas são pesadas: 150 mil yuanes (pouco mais de R$ 110 mil) para quem comer os produtos e 100 mil yuanes (R$ 74 mil) para quem vender.

No caso de reincidência, estes açougues poderão perder o alvará de funcionamento. No site da prefeitura, o governo afirma que esta é a regulamentação mais rigorosa já imposta durante a crise do novo coronavírus.

Entenda o caso

A proibição de Shenzhen não é um fato isolado. Em 08/04/20, o Ministério da Agricultura chinês deu indícios de que pretende proibir o consumo de carne de cães e gatos em todo o país. As autoridades de abastecimento publicaram uma relação de animais “próprios para consumo” e, pela primeira vez, excluiu os animais de estimação da lista.

Em um país no qual estima-se que entre 10 e 20 milhões de cachorros são abatidos todos os anos para fins culinários, a medida foi entendida pela comunidade internacional como um sinal importante. o texto diz claramente: “com o progresso da civilização humana e a preocupação pública e atenção com os animais, os cachorros deixaram de ser animais domésticos tradicionais e passaram a ser animais de companhia. Eles não são considerados comida no mundo inteiro e a China não deve manejá-los como faz com os animais da pecuária”.

Parte da comunidade científica internacional suspeita que o Sars-CoV-2 (o novo coronavírus que está causando síndromes respiratórias em todo o mundo, com um número crescente de mortes) tenha se desenvolvido a partir de vírus semelhantes que afetam animais.

Efetivamente, o primeiro foco da Covid-19 foi em Wuhan, na Província de Hubei, também na China. As primeiras pessoas infectadas pelo Sars-CoV-2 na cidade haviam frequentado o mercado local, em que animais silvestres, como morcegos, serpentes e pangolins, são comercializados para alimentação humana.

A Covid-19 está fazendo vítimas ao redor do mundo: 1,6 milhões de infectados e 102 mil mortes (dados de 10/04/20). No Brasil, o coronavírus infectou mais de 25 mil pessoas até o momenot e já causou mais mortes, em menos de dois meses, do que o sarampo, a dengue e o H1N1 em todo o ano de 2019.

Na tentativa de conter o avanço da pandemia, as autoridades sanitárias chinesas já fecharam os mercados que comercializam carne de animais silvestres (quase sempre expostos ainda vivos) e, a partir de 01/05/20, em Shenzhen entrará em vigor a proibição de comer cães e gatos.

Mas ainda não há consenso se cães, gatos e animais de outras espécies possam contrair a Covid-19 – ou doença semelhante causada pelo Sars-CoV-2. O que existe de certo é que qualquer animal pode portar o vírus, sem se infectar com ele, nos pelos e nas patas, facilitando o contágio de seres humanos.

O abate e consumo de carne de cães e gatos é relativamente comum no país. Mesmo assim, ele é proibido em Hong Kong (cidade de colonização britânica, reintegrada à República Popular da China em 1997) e em Taiwan (que se afastou da China continental em 1949, quando ocorreu a revolução comunista no país).

Da mesma forma, o consumo de carne de caça é uma tradição na China. Pode parecer estranho, mas morcegos e serpentes são considerados iguarias refinadas pelos habitantes locais. Mesmo proibido, o abate de animais silvestres e de estimação dificilmente será controlado apenas por força de lei.

O vírus pode migrar de uma espécie para outra?

É possível que um vírus específico, através de mutações, possa migrar e “saltar” de uma espécie para outra. Ainda hoje se especula que o HIV, causador a Aids, seria originalmente um vírus que afetava populações de macacos na África ocidental – mas nada foi comprovado.

Em geral, quando sofrem mutações, os vírus seguem caminhos diferentes. O Influenza A, por exemplo, causa gripe apenas em cães – ele é um subtipo do vírus da gripe humana. Mas parece haver casos de infecção em outros animais pelo Sars-Cov-2.

O número de casos é muito pequeno (estatisticamente desprezível) e não existe nenhuma evidência de que, uma vez no organismo canino (ou de outras espécies), o vírus seja capaz e infectar seres humanos. Em outras palavras, caso o Sars-CoV-2 migre para cães e gatos, o mais provável é que ele não consiga fazer o caminho de volta.

Existe a hipótese – que ainda está sendo testada – de que o novo coronavírus tenha migrado para outras espécies. Até o momento, poucos casos estão comprovados:

• um tigre-malaio fêmea, residente no Zoológico do Bronx (Nova York, EUA), apresentou sintomas da Covid-19 (febre e tosse seca) e os testes de laboratório deram positivo para o Sars-CoV-2;

• de acordo com o Centro de Vigilância Sanitária Veterinária de Madri (Espanha), os felinos parecem ser mais sensíveis ao Sars-CoV-2. Já foram diagnosticado casos de Covid-19 entre gatos na cidade, mas, por enquanto, são casos pontuais, longe de uma possível epidemia entre os bichanos;

• depois de avaliar 17 cachorros e oito gatos que viviam em residências com casos de Covid-19, autoridades de Hong Kong diagnosticaram dois cães com a doença: um pastor alemão e um lulu da Pomerânia.

Com mais de 1,6 milhões de casos confirmados entre os seres humanos, a infecção por Sars-Cov-2 até o momento só foi confirmada em dois cães, um ou dois gatos (um na Bélgica e outro em Hong Kong) e um tigre-malaio.

Uma equipe de pesquisadores chineses, do Instituto de Pesquisa Veterinária de Harbin, inoculou o novo coronavírus diretamente nas narinas de animais de diversas espécies e concluiu que o Sars-CoV-2 se replica mal em cães, porcos, patos e galinhas, mas de forma mais eficiente em gatos e furões.

Outro estudo, da Universidade Agrícola de Huazhong (China) analisou amostras de sangue de cem gatos de Wuhan (o primeiro epicentro da pandemia) que conviviam com humanos infectados e encontrou anticorpos contra o Sars-CoV-2 em 15% deles. Nenhum destes estudos foi submetido a revisões externas.

E não existe nenhum indício de que estes animais tenham transmitido a doença para outros indivíduos das suas espécies. Portanto, não existem justificativas para isolar (ou sacrificar) animais de estimação como forma de conter a pandemia.

Seja como for, a proibição de Shenzhen, que impede cães e gatos de irem para a panela, é muito bem-vinda. Eles são animais de estimação e devem ser tratados como tal. Não há justificativa racional para abater nossos melhores amigos.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here