Menino autista não suportava ser tocado até conhecer seu cão de serviço

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Autistas enfrentam desafios de interação. Este menino não suportava toques até conhecer seu cão de serviço. 

O comportamento infantil muitas vezes é um mistério para os pais. No caso de crianças com transtorno do espectro autista, esse mistério é ainda mais difícil de ser desvendado: são muitos os desafios da interação e comunicação. Cães de serviço podem ser muito úteis nesses casos e este menino, que nem sequer suportava ser tocado, é prova disso. 

Menino autista não suportava ser tocado até conhecer seu cão de serviço
SHANNA NIEHAUS | VIA LOVE WHAT MATTERS

Shanna Nienhaus estava morando no Japão quando recebeu o diagnóstico: seu filho Kai, então com quatro anos, foi identificado como autista. O menino não suportava nenhum tipo de toque físico, tinha problemas com interações sociais e havia desencadeado sobrecarga sensorial. Apesar disso, Kai sempre demonstrara interesse por cães 

O autismo 

A sobrecarga sensorial é um transtorno que ocorre quando a pessoa é exposta a uma quantidade ou intensidade de estímulos do ambiente maior do que é capaz de processar. Esses estímulos podem ser sonoros, táteis, auditivos, olfativos ou visuais. 

Para Kai, diagnosticado com um transtorno severo do espectro autista, um simples toque ou afago gerava episódios de isolamento, birra e choro. O menino não suportava o contato, que lhe causava desconforto e sofrimento. 

Menino autista não suportava ser tocado até conhecer seu cão de serviço
FACEBOOK/KAINADO

A família Nienhaus viveu ainda durante um ano no Japão. Foi preciso organizar uma vaquinha virtual para que Shanna e a família tivessem condições de retornar aos EUA, onde os pais acreditavam que seria mais fácil encontrar um tratamento para o menino autista. 

Menino autista não suportava ser tocado até conhecer seu cão de serviço
FACEBOOK/ 4 PAWS FOR ABILITY

Cão de terapia 

A família de Kai procurou ajuda na Four Paws for Ability, uma organização sediada em Xenia (Ohio, EUA) dedicada a tratar crianças com deficiências físicas e emocionais e enriquecer as suas experiências, proporcionando melhor qualidade de vida. 

A Four Paws atua em diversos países do mundo. Uma das frentes de trabalho é o treinamento de cães de serviço, para agirem como coadjuvantes nas terapias de reabilitação para diversos pacientes, de autistas a pessoas com dificuldades de audição, por exemplo. 

Menino autista não suportava ser tocado até conhecer seu cão de serviço
IMAGEM/FAMILIA NIEHAUS VIA USA TODAY

Depois da avaliação de Kai, a Four Paws treinou um cão especificamente para as necessidades do menino. Foi uma longa espera, já que o adestramento é individualizado, mas finalmente chegou o momento de a família Nienhaus conhecer Tornado, o cão de serviço. 

O primeiro encontro de Kai e Tornado foi emocionante para todos, especialmente para Shanna. Ela havia testemunhado o crescimento da criança e as dificuldades enfrentadas. Kai sempre havia preferido o isolamento e o comportamento exibido muitas vezes era agressivo e decepcionante. 

Shanna levou a família para o centro da Four Paws com um misto de receio e esperança. Conhecendo o filho intimamente, ela sabia que a experiência poderia ser mais um desalento, principalmente para Kai. 

Menino autista não suportava ser tocado até conhecer seu cão de serviço
FACEBOOK/KAINADO

Felizmente, os temores de Shanna eram infundados. Os resultados iniciais foram muito melhores do que o esperado. Kai aproximou-se de Tornado com facilidade, aceitando os “avanços” naturais do cachorro, com lambidas, patadas e muito afeto. 

A amizade entre o menino e o cachorro foi instantânea. No momento do encontro, havia repórteres do jornal USA Today e do site Love What Matters, a quem a mãe relatou: “Viram esse momento? Eu nunca experimentei nada parecido. Hoje foi o dia em que meu filho autista conheceu o seu cão de serviço. É impressionante”

Os pais disseram que nunca haviam visto Kai tão relaxado. O menino está sempre tenso – mesmo quando adormece, ele fica com os músculos contraídos. A simples presença do Tornado, devidamente treinado para não exibir gestos bruscos nem muito amplos, já começou a fazer efeitos terapêuticos sobre o menino. 

Menino autista não suportava ser tocado até conhecer seu cão de serviço
FACEBOOK/KAINADO

Mostrando uma foto de Kai debruçado sobre o cachorro, Shanna completou: “Esta foto mostra uma criança alegre para uma mãe que nunca pôde tocar, abraçar, lavar, vestir e aconchegar livremente. Ele está deitado sobre o Tornado espontaneamente, por sua própria vontade. Estou completamente sem fôlego”. 

Kai tomou o pulso do novo amigo, sentiu os batimentos cardíacos do Tornado, deitou-se sobre ele. São experiências sensoriais, a que o menino não está acostumado, por sempre ter rejeitado qualquer forma de contato. 

E, enquanto Kai brincava e os pais choravam de felicidade, Tornado demonstrava toda a paciência do mundo, permitindo que o menino autista explorasse cada centímetro do seu corpo. Isso pode parecer apenas uma brincadeira, mas o garotinho estava fazendo experiências com os próprios sentidos, apalpando, ouvindo, cheirando e observando um ser vivo, totalmente disponível para a exploração. 

Tornado foi o primeiro ser em quem Kai tocou livremente e permitiu que fosse tocado. A confiança se instalou de maneira imediata e espontânea. Trata-se de uma vitória imensa para o menino, que conseguiu superar as dificuldades e estabelecer contato. 

A história continua

Atualmente, Kai vive com outro cachorro da Four Paws. Touché (“tocado”, em francês) não completou o adestramento na organização, mas os pais de Kai garantem que ele se graduou com distinção e mérito na convivência com o menino autista. 

São dois anos de convivência e naturalmente as habilidades treinadas por Kai com os cachorros são assimiladas e transferidas para a convivência com outras pessoas. O menino ainda se ressente da presença de estranhos e certamente terá muitos desafios para superar nas próximas décadas. 

No que depender de cachorros como Tornado e Touché, no entanto, Kai e outras crianças autistas têm um apoio permanente. Psicólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas encontraram uma forma de transformar o amor incondicional dos cães em instrumento de reabilitação e interação social.