Morador de rua se recusa a ir para o abrigo sem seu cachorro: “Ou vai comigo, ou eu não vou!”

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Idoso paraguaio só aceita ser recolhido em abrigo junto com o cachorro: “O Rubio vai comigo, ou eu não vou!”  

Don José é um habitante de Ciudad Del Este, cidade na fronteira com o Brasil, no extremo leste do Paraguai. A cidade é interligada com Foz do Iguaçu (Paraná) e Puerto Iguazú (Misiones, Argentina). Don José é um morador de rua e está sofrendo com o frio intenso dos últimos dias, mas foi taxativo quando tentaram recolhê-lo a um abrigo: “ou o Rúbio vai, ou eu não vou!”, afirmou o idoso. 

As temperaturas já estavam baixas em Ciudad Del Este, mas despencaram desde o final de julho de 2021, com mínimas abaixo do 0°C durante as madrugadas. Don José sobrevive nas ruas e faz parte do imenso contingente de pessoas excluídas do sistema. Mas o idoso tem um companheiro inseparável: Rúbio, um cachorro caramelo – e não quis separar-se dele nem mesmo para garantir a sobrevivência, muito mais do que o conforto e o bem-estar nestas noites congelantes. 

Rúbio e Don José 

O idoso vive recolhendo material para ser reciclado e também das esmolas que recebe: Ciudad Del Este é conhecida pelo comércio internacional e muitos sacoleiros brasileiros e argentinos viajam para a cidade paraguaia em busca de ofertas, para revender no comércio popular. 

Rúbio acompanha Don José há anos, pelas suas andanças nas ruas da cidade. No início do inverno, ele já havia recebido cobertores distribuídos pela Direção de Desenvolvimento Social, mas ele se recusou a pernoitar no abrigo provisório improvisado para os sem-teto. 

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O idoso e seu fiel companheiro deitado ao seu lado. (Foto: Reprodução/Wapa)

O abrigo foi instalado inicialmente na Escola de Artes e Ofícios e, desde 29.06.21, está funcionando no Centro Esportivo Municipal do bairro Pablo Rojas. No local, os sem-teto podem tomar banho, recebem refeições, roupas e auxílio médico, se necessário. 

Mas o abrigo não aceitava cachorros, nem tinha espaço para guardar os pertences das pessoas carentes, como Don José. Por isso, o idoso, ao ser abordado pelas equipes do serviço social, recusava-se terminantemente a ir para o abrigo. 

A tarefa de recolher os desabrigados tem início todos os dias, por volta das 16h30min. No caso de recusa, os servidores distribuem alimentos e roupas, mas estas são insuficientes para enfrentar o frio das noites de Ciudad Del Este. 

A história de Don José e Rúbio, no entanto, serviu de inspiração para alterar as diretrizes do abrigo. A amizade dos dois finalmente convenceu as equipes de resgate a aceitar “os melhores amigos” que acompanham os cidadãos que vivem nas ruas. 

A foto de Don José, deitado na cama improvisada no abrigo e sorrindo para Rúbio, retrata a necessidade de humanização dos serviços de promoção social, não só no Paraguai, mas em todos os lugares do mundo em que há pessoas vivendo nas ruas. 

A recusa inicial de Don José nas primeiras abordagens foi devida ao fato de não aceitarem cachorros nos abrigos. Ele preferia arriscar-se a deixar o peludo sozinho. Mas, finalmente, a dupla foi aceita está passando noites mais quentes no ginásio esportivo. 

Os dois amigos estão passando as noites no centro improvisado, aquecidos com as refeições e os agasalhos distribuídos pela Direção de Desenvolvimento Social paraguaia. Don José está seguro (ao menos provisoriamente), mas Rúbio continua atento ao movimento, pronto para entrar em ação. 

Ao La Nación, jornal paraguaio, Sonia Barrios, diretora do serviço social, declarou: 

“Aquele cachorro não fala, mas é muito inteligente. Nem por um momento ele abandona o dono, nem o homem abandona o cachorrinho, eles são muito amigos.” 

Barrios disse ter tirado a foto da dupla já aconchegada na cama depois que os servidores do abrigo acolheram Don José e providenciaram banho, roupas quentes e refeições para os dois amigos. As imagens viralizaram e estão correndo mundo. 

Don José e Rúbio saem do abrigo todas as manhãs, mesmo depois de terem sido informados de que poderiam passar os dias no centro esportivo enquanto as temperaturas não subissem. O idoso disse que “trabalhar faz parte da vida e também é uma maneira de se distrair junto ao fiel amigo”.