Mulher organiza local para animais idosos passarem os últimos dias

Por: em

Uma mulher da Escócia criou o primeiro asilo para animais idosos desfrutarem os últimos dias de vida. Veja que história linda…

Alexis Fleming, uma mulher de 40 anos que vive em Kirkcudbright (sudoeste da Escócia) é a fundadora do primeiro asilo do mundo especializado em receber animais idosos. O objetivo de Fleming é proporcionar um local seguro e acolhedor, para os peludos e emplumados passarem os últimos dias de vida.

Trata-se do Maggie Fleming Animal Hospice, o asilo para animais idosos cuja história foi revelada para o mundo com a publicação, em março de 2021, do livro “No Life Too Small: Love and Loss at The World’s First Animal Hospice” (nenhuma vida é tão pequena: amor e perda no primeiro asilo para animais do mundo, em tradução livre).

Alexis Fleming

A cuidadora tem uma história própria de abandono, dor e morte. Ela passou parte da vida sem teto, dormindo em albergues ou no carro velho – que surpreendentemente ainda funciona. Há cinco anos, ela foi diagnosticada com a doença de Crohn.

Trata-se de uma doença autoimune do trato intestinal que causa ulcerações e inflamações no órgão. O quadro era grave e os médicos deram seis semanas de vida a Fleming. Foi uma batalha difícil. A doença não foi superada, mas está controlada.

A cuidadora abandonou a medicação, porque isso a impedia de fazer qualquer atividade, inclusive conviver com os animais (na época, ela vivia com três cachorros). Os medicamentos aliviavam a dor, mas comprometiam ainda mais o sistema imunológico: Fleming estava em um beco sem saída.

Depois de pesquisar, Alexis passou a usar óleo de cannabis, a última aposta (que fez por conta própria). Na consulta médica seguinte, para espanto do médico, o quadro havia se alterado. O intestino estava funcionando regularmente, apenas com cicatrizes nos locais dos antigos ferimentos.

Alexis Fleming precisava ocupar o tempo com alguma coisa útil e significativa. Ela começou a pensar em cuidar de cachorros, mas antes que pudesse fazer planos concretos, Maggie surgiu na sua vida.

Histórias do asilo

Alexis Fleming conta diversas histórias em seu livro. Tudo começou quando ela encontrou Maggie, uma cadela bull mastiff que dá nome ao asilo e santuário. A cachorra imensa cruzou a vida da escritora na véspera de Natal, quando Fleming cruzou casualmente o caminho do tutor, que queria se livrar do animal.

Maggie viveu feliz com Alexis durante poucos dias, mas a cachorra teve de passar por uma cirurgia de emergência e não resistiu. A experiência foi o estímulo necessário para a escocesa criar o primeiro asilo do mundo para animais de criação e companhia.

O Santuário Karass, do Maggie Fleming Animal Hospice, foi instalado em Ringliggate, distante 8 km de Kirkcudbright, em um terreno de cinco hectares. Atualmente, vivem no asilo quase 150 animais (entre mamíferos e aves), resgatados das ruas e de centros escoceses de controle de zoonoses.

Mais uma história chama a atenção no livro. George era um velho retriever do Labrador, que foi encontrado isolado em um galpão. De acordo com relatos obtidos por Alexis como moradores das redondezas, George permaneceu preso durante quatro anos.

Resgatado, o Labrador foi levado para o Animal Hospice, onde foi tratado e recebeu carinho por 12 dias, ao final dos quais George morreu. O livro de Alexis Fleming, no entanto, não é uma coletânea de histórias tristes: a autora narra os episódios da construção do asilo com humor, ironia e deixa transparecer muito amor pelos animais.

Em comum, todos os hóspedes chegam ao asilo assustados, arredios e amedrontados. Alguns, como George, permanecem pouco tempo no local, mas recebem uma boa dose de carinho e atenção, que transforma os últimos dias da vida.

No primeiro asilo para animais do mundo, vivem sete cães, dois gatos, quatro codornas, quatro perus, nove ovelhas, dez cordeiros, seis porcos, 46 galos e 68 galinhas. Além destes, há três cães “domésticos”, que vivem com Alexis mas passam os dias no santuário. Dois deles não têm raça definida e o terceiro é um staffordshire terrier ruivo.

Em um relato sobre o dia a dia de um asilo, a morte está sempre presente, mas Fleming conta as suas histórias com bom humor, desde a primeira motivação. Ela havia prometido a Maggie (a bull mastiff) que voltaria para buscá-la no hospital, mas isso não foi possível.

A cuidadora narra experiências diversas, como os ataques de surpresa de Charles, um peru violento que está sempre à espreita, a correria inesperada das ovelhas colina acima ou a “redecoração” dos ambientes promovidas pelos porcos.

O lado sério e triste também está presente em “No Life Too Small”. Alexis escreve com honestidade sobre dor e morte, temas recorrentes no asilo. A mulher permanece ao lado dos animais abandonados, que, muitas vezes, precisam apenas de um pouco de carinho e de descanso nos últimos dias.

Alexis Fleming é uma espécie de Dr. Dolittle: ela conversa o tempo todo com os animais idosos. Os papos giram sobre assuntos corriqueiros, como biscoitos roubados da despensa ou o papel de parede arrancado da cozinha.

O tema mais recorrente, no entanto, é a doença e a morte. Alexis sempre se lembra das promessas que fez para Maggie e George. Para todos os animais que são admitidos, a cuidadora faz uma promessa solene:

“Prometo que, quando você disser que está na hora de ir embora, eu ouvirei e juntos faremos o melhor que pudermos. Enquanto o momento da despedida não chega, vamos fazer a parte do amor e do carinho”.

Alexis afirma estar ciente de que os animais não entendem o que ela diz, assim como ela não sabe o significado de latidos, miados e balidos. As conversas servem apenas para que cachorros, gatos e outros se sintam seguros e protegidos.

Aos poucos, os animais aprendem a confiar em Fleming. Ela diz que consegue reduzir ao máximo o estresse e os traumas vividos anteriormente, para que os abrigados possam viver com tranquilidade e dignidade – mesmo que seja apenas por alguns dias.