Usuária de drogas sequestra cachorra; tutor se oferece para pagar tratamento

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Em vez de chamar a polícia, tutor se ofereceu para pagar tratamento a ladra usuária de drogas.

Depois do susto de ter seu animal de estimação roubado, um canadense descobriu o paradeiro da cachorra, que estava em poder de uma adicta de drogas. Em lugar de chamar a polícia para prender a sequestradora, ele se ofereceu para pagar o tratamento à mulher.

O caso ocorreu no final de junho de 2021, em Cranbrook, uma cidade de 20 mil habitantes na Colúmbia Britânica, no oeste do Canadá. Ao perceber o sumiço de Daria, uma cadela da raça shar-pei, Brayden Morton fez as primeiras postagens nas redes sociais.

Usuária de drogas sequestra cachorra; tutor se oferece para pagar tratamento
Darla, a shar-pei roubada. Créditos: Brayden Morton

A história

Daria havia desaparecido do quintal de casa, depois de ter embarcado em uma velha camionete azul. A cachorra sempre acompanhava o tutor e não havia como ela ter escapado. O veículo estava em frente à casa e a cachorra havia sido levada contra a vontade.

Morton decidiu fazer uma postagem com fotos de Daria, oferecendo uma recompensa de cinco mil dólares canadenses (pouco mais de R$ 20 mil, pela cotação atual). O valor foi suficiente para fazer viralizar o post, que, em poucas horas, já havia sido compartilhado mais de 30 mil vezes. Milhares de internautas se dispuseram a ajudar a recuperar o animal.

A espera e a angústia se prolongaram ainda por alguns dias. Então, Morton recebeu uma ligação de número não identificado. Tudo o que ele conseguiu ouvir foi o choro de uma mulher, mas alguma coisa lhe dizia que era a sequestradora de Daria.

A mulher apenas chorava, alternando algumas palavras de arrependimento que eram ouvidas com dificuldade. Morton decidiu tentar o diálogo e disse inicialmente: “escuta, eu não estou bravo com você. Está tudo bem”.

Apesar do nervosismo e ansiedade, o tutor conseguiu prolongar a conversa. Ele continuou: “eu também já errei muito na minha vida. Eu vou até a minha casa, vou pegar a recompensa e levá-la para você. Eu gostaria de conhecê-la. Onde você quer me encontrar?”.

Morton sabia que a mulher estava passando por dificuldades. Assim que a viu, soube que ela precisava de ajuda. O tutor aproximou-se da ladra, abraçou-a, disse que estava tudo bem e que ele não estava com raiva, porque entendia o que ela estava passando.

O tutor percebeu que a mulher estava vivendo exatamente como ele vivera alguns anos antes: entre a obsessão por encontrar a droga e a compulsão por consumi-la. Morton contou sobre as experiências que vivenciou anteriormente, em uma conversa que se prolongou por mais de 20 minutos.

A mulher finalmente disse que não queria o dinheiro da recompensa. Ela simplesmente não conseguia conviver com a ideia de ter sequestrado uma cachorra para tentar suprir a necessidade de drogas. A ladra e raptora considerava ter atingido o fundo do poço.

O tutor decidiu fazer uma proposta diferente. Em vez de ficar com o dinheiro da recompensa, a mulher poderia devolver Daria e internar-se em uma clínica para dependentes. Ele custearia as despesas iniciais do tratamento. A mulher aceitou.

O homem da caminhonete

Morton precisava encontrar outro personagem desta história: o motorista da caminhonete azul. Não ficou claro qual foi a participação desse homem, mas Morton o encontrou e descobriu que ele havia se tornado um sem-teto e estava morando no veículo com dois cachorros.

A primeira reação de Morton foi acusar o homem de sequestro, mas o tutor de Daria decidiu que isso não levaria a lugar nenhum. O motorista acabou contando o que havia ocorrido nas últimas semanas e como ele havia se tornado um sem-teto em Cranbrook.

Morton despediu-se e dispunha-se a seguir o seu caminho, mas percebeu que não poderia deixar o homem com os cachorros na caminhonete. Retornou ao local do encontro, disse para o motorista segui-lo e providenciou hospedagem em um hotel de beira de estrada, por uma semana.

Depois de ver as postagens do “motorista da caminhonete azul”, outros internautas se sentiram emocionalmente envolvidos. Em uma coleta rápida, conseguiram dinheiro suficiente para mais alguns dias de hospedagem. O grupo também obteve um emprego para o agora ex-sem-teto.

A recuperação

O tutor de Daria é um dependente de drogas em recuperação. Durante anos, ele fez uso abusivo de fentanil, um opioide usado como analgésico e coadjuvante em anestesias. É um dos medicamentos mais usados contra dor em hospitais no mundo inteiro, mas provoca dependência química em prazos relativamente curtos.

Morton está em recuperação há pouco mais de seis anos. Por isso, ele conseguiu entender o drama por que a mulher estava passando. Os adictos que se tratam em grupos de ajuda mútua consideram um deve auxiliar outras pessoas que passam por problemas semelhantes.

Em algumas terapias para dependentes de drogas lícitas e ilícitas, considera-se que a adicção é uma doença primária e incurável, mas que pode ser controlada. A regra básica nesses grupos é “avançar um dia de cada vez”.

Por isso, os dependentes que adotam este tratamento classificam o tempo que passam “limpos”, isto é, sem usar drogas, como período em recuperação. Eles nunca dizem que são “ex-dependentes”, ou “dependentes curados”.