Um cachorro vira-lata transformou um estádio em lar, conquistou uma torcida inteira e se tornou símbolo nacional da adoção responsável. Essa é, sem dúvida, a melhor história que o futebol paranaense já protagonizou fora das quatro linhas.

O Dia em que as Arquibancadas Descobriram um Novo Torcedor
Tudo começou em 2022, durante uma partida do Campeonato Brasileiro no Estádio Major Couto Pereira, em Curitiba. Um cachorro de pelagem caramelo chamava atenção nas arquibancadas, completamente hipnotizado pela movimentação da bola em campo. As imagens viralizaram rapidamente nas redes sociais, e o Brasil inteiro queria saber quem era aquele torcedor de quatro patas.
Com o apito final, o animal desapareceu tão misteriosamente quanto havia aparecido. Iniciou-se então uma verdadeira campanha popular em busca do paradeiro do cão. Doze dias depois, ele foi encontrado — e sua vida jamais seria a mesma.
Do Canil do Estádio à Casa do Adestrador
Adotado pelo Coritiba Foot Ball Club em setembro de 2022, o vira-lata ganhou um nome à altura: Caramelo Auviverde. O sobrenome, uma referência às cores do clube alviverde, veio naturalmente. Antes de conquistar os holofotes, porém, ele precisou superar os próprios medos.

O bombeiro militar e adestrador Leonardo Pereto foi o responsável por essa transformação. O desafio era considerável: trabalhar com um cão adulto de rua, carregando traumas e inseguranças típicos de quem viveu na incerteza das calçadas. Caramelo chegou ao estádio estimado com cerca de um ano e meio de idade e começou sua nova rotina em um canil construído especialmente para ele no Major Couto Pereira.
Com o tempo, a relação entre homem e animal se aprofundou. Caramelo passou a morar na casa de Pereto, onde divide o dia entre sessões de adestramento, brincadeiras e descanso. Hoje, dois anos depois, a conexão entre os dois é descrita como perfeita.
Um Mascote com Agenda Profissional
Atualmente com cerca de cinco anos, Caramelo cumpre compromissos como qualquer outro profissional do clube. Sua principal obrigação é o Aquece Coxa, evento de pré-jogo que agita a torcida antes das partidas em casa. Ao lado do personagem Vovô Coxa, o cão participa de sessões de fotos e interações com os torcedores — sempre por meia hora, respeitando seu bem-estar animal.
O mascote também impressiona pela desenvoltura dentro do estádio. Circula pelo campo, pela arquibancada, pelo vestiário e até pela sala de imprensa com desenvoltura total. Obedece a comandos básicos, corre atrás da bola e, no momento certo, pula como se estivesse celebrando um gol marcado.
A Causa Animal Que Ganhou as Chuteiras
Segundo o Bem Paraná, a história de Caramelo inspirou o Coritiba a abraçar ativamente a causa animal. O exemplo mais expressivo foi o Setembro Caramelo de 2025, uma ação inédita realizada em parceria com o Instituto SOS 4 Patas Paraná. Na ocasião, onze cães — entre filhotes e adultos — entraram em campo com os jogadores antes de uma partida contra o Goiás.

Durante duas semanas, os animais passaram por adestramento voluntário para se habituar aos sons e estímulos do ambiente esportivo. O resultado foi expressivo: dos 14 cães disponíveis para adoção, oito encontraram um lar. A mobilização também arrecadou uma tonelada de ração e comercializou 150 pelúcias inspiradas no mascote, com toda a renda revertida à instituição parceira.
Um Ativo Estratégico para o Clube
A relevância de Caramelo vai muito além do afeto. “Ele é uma peça fundamental para o clube”, afirma Victoria Costa, responsável pelos mascotes no marketing de experiência do Coritiba. Segundo ela, o cão impacta diversas áreas da organização — da construção de marca às ações institucionais — e se destaca por ser o único mascote animal vivo em atividade no futebol brasileiro.
Um Símbolo que Transcende as Rivalidades
O que torna Caramelo verdadeiramente especial é sua capacidade de unir torcedores de times diferentes em torno de uma causa comum. Em um esporte marcado por paixões divididas, um vira-lata caramelo conseguiu o improvável: ser querido por todos, independentemente do escudo bordado na camisa.
Sua trajetória — das ruas ao gramado, do abandono à consagração — representa a melhor narrativa possível sobre adoção responsável. E prova que às vezes os maiores ídolos do futebol não precisam marcar gols. Basta latir na hora certa.