É possível criar uma amizade entre cachorro e gato? Afinal, eles se odeiam tanto… Esta ideia faz parte do imaginário popular. Na verdade, cães e gatos não se odeiam. Na natureza, os felídeos nem sequer pensam em atacar cães selvagens, uma vez que estes vivem em grandes bandos e a caçada seria uma operação de alto risco.

Por outro lado, os lobos nem sequer tentam alcançar leões ou leopardos, porque não conseguiriam superá-los em uma corrida – mesmo se perseguissem filhotes. Nenhum dos demais canídeos é páreo para os demais primos selvagens dos nossos bichanos.

Como criar uma amizade entre cachorro e gato?

A maioria dos cachorros persegue “coisas pequenas e peludas”. Até mesmo o pequeno yorkshire terrier foi criado para isto (originalmente, os cães da raça caçavam roedores e outros pequenos mamíferos). No entanto, boa parte da briga entre cães e gatos é um mito, estimulado inclusive pela literatura e até mesmo pela imprensa.

Os motivos

Mas por que cachorros e gatos se atritam tanto, afinal? A “culpa” disto é dos humanos. Fomos nós que, sem querer, forçamos uma convivência que não é natural. Eles não são inimigos, apesar do ditado “vivem como cães e gatos” significar uma convivência cheia de brigas.

Cães e gatos selvagens vivem em comunidades isoladas, com territórios de caça que podem até se confundir, mas dificilmente se transformam em campos de batalha. Nas nossas cidades grandes e pequenas, no entanto, eles são obrigados a dividir o espaço – e isto nem sempre dá certo.

No início, felinos e caninos tinham tarefas definidas e territórios delimitados. Os cães, que, de acordo com alguns pesquisadores, já vivem conosco há 100 mil anos, eram responsáveis pela guarda, defesa e caça (a espécie é “multitarefa” e foi empregada nas mais diversas atividades).

Os gatos chegaram muito tempo depois, quando nós começamos a estocar grãos e era necessário defender os silos das pragas domésticas. Os primeiros povos a produzir excedentes de alimento surgiram no Oriente Próximo (Egito e Mesopotâmia), local de origem dos gatos domésticos.

É natural que espécies diferentes desconfiem umas das outras. Cachorros e gatos são predadores e, também por uma lei natural, os maiores caçam os menores e os gatos urbanos terminaram por se tornar presas mais fáceis. Os que os nossos pets fazem é simples reproduzir um comportamento instintivo: cães perseguem, gatos fogem apressados.

Vale lembrar que cachorros e gatos continuam mantendo seus instintos selvagens. Ratos, passarinhos, lagartixas e outros são naturalmente predados pelos nossos pets – e isto não tem nada a ver com ódio. Evidentemente, alguns de nossos amigos peludos podem se mostrar medrosos e fugir destas “ameaças”, mas isto está relacionado ao temperamento individual, e não ao instinto.

Esta “luta entre espécies” é estimulada pela convivência, quando os animais precisam competir por moradia (o que equivale a segurança e proteção) e, no caso dos cachorros e gatos, especialmente pela atenção dos tutores – os membros humanos da família.

Resolvendo o problema

Cachorros e gatos que vivem no mesmo ambiente dificilmente se estranham. Um cão persegue um gato “invasor” que desfila no alto do muro da “sua” propriedade ou começa a miar insistentemente na casa do vizinho, mas pode se acostumar facilmente quando um gato divide o espaço. Crises de ciúme à parte, naturalmente.

Mas, mesmo que um cachorro e um gato não se afinizem, os tutores podem tomar algumas providências para fazer com que eles se deem bem. Isto é verdadeiro para filhotes e também para os animais adotados quando já são adultos.

A primeira providência é obvia. Antes de trazer um novo pet para casa, verifique se ela tem espaço para comportar os dois animais com conforto. Isto equivale a dizer que os dois membros da família consigam encontrar locais para as muitas sonecas do dia e também pontos seguros, para que se escondam de eventuais ameaças, como chuvas com raios e trovoadas.

Se o pet mais antigo é um cão, verifique se ele atende aos comandos básicos: “sim”, “não” e “fora”. Caso se tratar de um animal desobediente, a ocorrência de uma briga instantânea é mais do que provável e, como diz o ditado, a primeira impressão é a que fica.

Quando o mais antigo é o gato, a aproximação é mais rápida tranquila, principalmente quando se trata de um filhote. Provavelmente, o gato se manterá a uma distância segura do novo membro da família, mas a curiosidade natural o levará a explorar o cãozinho novato.

Nesta situação, a amizade entre cachorro e gato quase sempre ocorre de forma natural. O importante é respeitar as características individuais de cada pet. Alguns deles poderão inclusive dormir juntos, enquanto outros preferirão manter uma distância segura ou mesmo ignorar a presença do novo companheiro. Nenhuma destas situações oferece riscos.

Primeiros passos

1) Separe os pets

Ao introduzir um novo animal de estimação na casa da família, o ideal é que ele seja mantido isolado durante alguns dias. O perigo, nestes primeiros momentos, não é tanto a reação do pet mais velho, mas a necessidade do mais novo de se adaptar ao ambiente, que é novo e pode ser apavorante, especialmente se ele acaba de ser separado da mãe e do restante da ninhada.

A separação é necessária também para impedir que o cachorro comece a perseguir o gato logo nos primeiros encontros. O contato visual é importante para que os dois pets estabeleçam a comunicação, que, no caso deles, se efetiva não apenas com os olhos, mas principalmente com o fato. Em outras palavras, eles precisam se acostumar com o cheiro um do outro.

2) Misture aromas

Uma boa dica para promover a amizade entre cachorro e gato é fazer com que eles se acostumem com os cheiros. Acaricie o animal mais novo e, em seguida, acaricie também o veterano. A sua mão e as suas roupas estarão impregnadas de aromas e os pets naturalmente farão a associação entre o prazer do afago e a presença do recém-chegado.

Os dois pets naturalmente farejarão embaixo da porta que os separa temporariamente. Sempre que isto acontecer, dedique alguns minutos para afagá-los ou proponha brincadeiras tranquilas.

Nós não podemos sentir a maioria dos cheiros exalados pelos animais de estimação, mas eles, sim. O motivo disto é que estamos destreinados. Há muito tempo, não precisamos utilizar o olfato para satisfazer necessidades básicas, como obter alimento ou parceiros sexuais. Cachorros e gatos continuam se guiando pelo faro.

Comece a misturar os cheiros. Por exemplo, com o gato na sala e o cachorro na cozinha, em pouco tempo os aromas indetectáveis para os humanos impregnarão os dois ambientes. Continue fazendo a associação entre os cheiros e a sensação de bem-estar – traduzida em carinhos, petiscos, brincadeiras, etc.

Nos dias seguintes, alterne os cômodos dos dois “rivais”. Além de acostumar o mais novo com outros ambientes da casa, esta providência aumentará a troca de aromas e os dois pets ficarão mais relaxados, sentindo-se seguros mesmo com a presença do novato.

Existem feromônios sintéticos (feromônios são aromas exalados pelos mamíferos – as fêmeas os produzem quando estão no cio e os machos, durante toda a vida adulta), normalmente utilizados para facilitar a cruza de cães e gatos.

Estas substâncias podem ser empregadas na aproximação de cães e gatos: o gatinho passa a exalar o aroma de uma cadela no cio. Isto, no entanto, é uma medida drástica. Consulte o seu veterinário para saber se vale a pena usar este recurso.

3) A apresentação

Espere que o gato esteja tranquilo na nova casa. Escolha um momento em que ele esteja relaxado, já adaptado aos estímulos visuais, sonoros e olfativos do ambiente. Lembre-se: se o bichano ainda continuar se escondendo ao perceber a presença do cão, ainda não é hora da apresentação.

Ao apresentá-los, segure o gato em suas mãos e aproxime-o do focinho do cachorro (se for um animal de grande porte ou muito afoito, talvez seja necessário que outro membro da família o conduza com coleira e corrente).

Só permita o contato físico entre os dois pets quando não houver sinais de alerta. Se o gato se sentir tranquilo em seu colo, deixe-o solto e permita que o cão “inspecione” o novo colega. Importante: use mangas compridas, para impedir ferimentos com as garras sempre afiadas do felino.

Caso o cachorro se mostre muito agressivo, latindo, rosnando e tentando atacar, provavelmente ele está muito estressado – e isto não tem nada a ver com a presença do gato, mas com a falta de atividades. Aumente a frequência e a intensidade dos passeios e brincadeiras. É muito provável que este cão esteja frustrado com a inatividade.

Mas, mesmo que isto aconteça, resolva a situação separando-os imediatamente, sem necessidade de brigar com o cachorro. A presença de um novo amigo peludo quase sempre é considerada como uma invasão territorial e gera uma resposta natural.

No outro extremo, recompensas também devem ser utilizadas. Além dos carinhos, ofereça petiscos e frases de estímulo para o cachorro sempre que ele se comportar bem com o novo companheiro. Bom comportamento, neste caso, significa lambidas, patadas leves, cheiradas. Afinal, o cachorro ainda está tentando entender o que é aquele ser; para ele, é quase um ET.

4) Carinho, muito carinho

Muitos amantes de animais de estimação sabem disto naturalmente. Talvez por isto, muitas pessoas que convivem com cachorros e gatos nunca tenham tido problemas de relacionamento na família. O principal ingrediente para a boa convivência é o amor.

Distribua carinhos para o gato e o cachorro. Caso o cachorro seja muito ciumento, mantenha o contato visual com ele enquanto afaga o gatinho. O famoso “olho no olho” sempre funciona. O importante é que o cachorro não entenda o gato como uma ameaça, uma possibilidade de perda do afeto e da atenção da família.

Não force a convivência dos dois pets. Depois que forem apresentados, deixe-os cada um cuidando dos próprios interesses. Com o gato solto, é natural que ele comece a investigar a casa toda. Certamente, o cachorro irá atrás dele – afinal, ele precisa defender a propriedade, mesmo que seja um chihuahua.

Para não estressá-los, deixe-os separados até que desapareçam todos os sinais de medo (geralmente, por parte do gato, mas também pode ocorrer que o cachorro se amedronte). Progressivamente, aumente os períodos de convivência. Assim, eles conseguirão encarar a nova condição de forma natural.

Por fim, lembre-se: cães e gatos foram obrigados por nós a viverem juntos. A amizade certamente é possível – e desenvolve-se na imensa maioria dos casos –, mas trata-se de uma situação artificial. Por isto, providencie locais para onde o gato possa escapar (uma prateleira elevada, por exemplo).

Da mesma forma, garanta que o cachorro tenha seus locais de descanso e refúgio, sem a presença de um gato curioso e, às vezes, muito ciumento. Os cães também podem se sentir muito amedrontados com a presença de um bichano – e alguns deles são bastante ariscos, não hesitando em usar as garras para se defender ou para atacar.


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