Por que cachorros de raças menores são mais bravos?

Um dos motivos pode ser o complexo de inferioridade. Veja por que os cachorros pequenos são bravos.

Muitos cachorros de raças menores são considerados mais bravos do que os seus primos grandalhões. É comum observar cães de pequeno porte arrastando os tutores pela corrente durante as caminhadas, uma indicação clara de dominância.

Quem vive com cachorros de raças grandes e pequenas quase sempre percebe que os menores tendem a ser “baixinhos invocados”: eles são os primeiros a darem o alerta de alguma coisa estranha e muitas vezes se alimentam antes dos maiores – desta vez, um sinal de territorialidade: eles se acham os “donos do pedaço”.

Por que cachorros de raças menores são mais bravos?

Os motivos para a braveza

Muitos tutores descrevem o pinscher miniatura – uma das menores raças caninas – como “50% ódio, 50% tremedeira”. Brincadeiras à parte, estes cãezinhos quase sempre são amigáveis, apesar de não hesitarem em dar mordidas em alguns tornozelos desavisados.

Os motivos dos tremores são variados: medo, ansiedade, excitação, dor, etc. A raiva, no entanto, é mais anedótica do que real. Seja como for, existem algumas razões para tanto ódio: cães pequenos, como chihuahuas e pinschers miniatura são muito mais propensos a acidentes no dia a dia.

É preciso estar sempre alerta para se defender. Para os cachorros de raças menores, uma queda do sofá equivale a despencar de mais de duas vezes a própria altura. Alguns visitantes podem se encantar com os nanicos e arrebatá-los, em frações de segundo, a 1,80 metro de altura – seis vezes a altura de um chihuahua na cernelha.

Além disso, os atropelamentos e pisões são relativamente frequentes, por maiores que sejam os cuidados dos tutores. Nos EUA, país em que os “pocket dogs” (cachorros de bolso) estão na moda, alguns criadores inescrupulosos chegam a provocar fraturas nas pernas para garantir a baixa estatura.

Tamanho original

Os cachorros domésticos atuais descendem – todos eles – dos lobos. Alguns estudiosos chegam a considerar os nossos peludos apenas como uma subespécie: enquanto os lobos são classificados como Canis lupus, os melhores amigos dos humanos recebem apenas um termo a mais: Canis lupus familiaris.

O lobo é um sobrevivente da Era do Gelo, tendo surgido no Pleistoceno superior, há cerca de 300 mil anos (o Homo sapiens apareceu quase na mesma época – mais ou menos 50 mil anos antes, mas na África equatorial, enquanto os primeiros Canis lupus viveram nas florestas temperadas da Eurásia).

Os cães atuais devem ter começado a se desenvolver há cerca de 100 mil anos, quando o Homo sapiens começou a colonizar a região do Mediterrâneo. Juntas, as duas espécies se espalharam pelo mundo inteiro.

Por que cachorros de raças menores são mais bravos?

Os lobos atuais são animais de grande porte (e os fósseis indicam que eles já surgiram grandes). Um lobo-cinza atinge um metro de altura (na cernelha), enquanto um rottweiler, por exemplo, tem em média 70 cm de altura.

Todas as raças caninas se desenvolveram a partir de um ancestral comum. Foi através de cruzamentos seletivos que os cachorros se tornaram progressivamente menores. Uma equipe dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), dos EUA, concluiu, depois de dez anos de pesquisas, que os ancestrais dos atuais chihuahuas e lulus da Pomerânia já viviam entre humanos há mais de 50 mil anos.

Especula-se que, nessa época, grupos humanos começaram a selecionar os espécimes menores provavelmente em função da aparência: eles são mais atraentes e fofinhos. O estudo pesquisou sequências genéticas em diversos canídeos e concluiu que os nossos nanicos apresentam uma forma reversa do gene IGF1 – o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1.

Também conhecido como somatomedina C, o IGF1 é uma proteína produzida pelo fígado em resposta à secreção do hormônio do crescimento (GH), com papel importante no desenvolvimento ósseo e muscular, por aumentar a síntese das proteínas.

O IGF1 também exerce funções importantes no controle dos níveis de glicose na corrente sanguínea e na redução dos níveis de gordura corporal, por alterar a oxidação lipídica. A proteína está presente em todos os animais superiores.

Nos cachorros pequenos, o gene apresenta variantes relacionadas ao tamanho do corpo (os cientistas do NIH analisaram cães de 200 raças diferentes). Os estudos foram confirmados por pesquisadores das universidades de Oxford (Inglaterra) e Ludwig Maximilian (Alemanha), que examinaram o DNA de um lobo antigo e descobriram a mutação do IGF1 pela primeira vez na história.

Complexo de Napoleão

Estudiosos ainda discutem sobre a real existência deste transtorno, que poderia afetar outras espécies (além dos humanos). De acordo com a descrição mais aceita, o complexo de Napoleão é a condição em que os seres menos dotados fisicamente tendem a compensar as deficiências reais ou supostas com o uso da agressividade e da violência. Mas os estudos ainda são inconclusivos: enquanto uma pesquisa da Universidade Central de Lancashire (Inglaterra), publicada em 2007, concluiu que homens com menos de 1,67 metro são menos agressivos do que os de estatura mediana.

Por que cachorros de raças menores são mais bravos?

Outro estudo (de 2015), do Centro de Controle de Doenças (CDC), o principal órgão de controle de saúde dos EUA, pesquisou 600 voluntários (homens de 18 a 50 anos) e concluiu que os de baixa estatura são realmente mais agressivos, inclusive com observações sobre uso de drogas e prática de crimes.

 O transtorno está relacionado ao imperador francês Napoleão Bonaparte, que teria tentado compensar a baixa altura com as conquistas e a dominação do continente. A descrição, obviamente, foi feita pelos adversários do militar.

Não é possível saber se os cães sofrem com a baixa estatura, mas uma pesquisa realizada por David Sandberg (Universidade de Buffalo, EUA) e Linda Voss (Peninsula Medical School, Plymouth, Inglaterra) ouviu 1.000 tutores de cachorros e 67% deles acreditam que os baixinhos são mais bravos justamente por conta do complexo.

Outros levantamentos indicam que os animais menores tendem a ser mais agressivos. O professor Andreas Svensson, da Universidade de Linnaeus (Suécia, 2012), estudou peixes da espécie Chlamydogobius eremius (um peixe conhecido como goby-do-deserto) e concluiu que os machos menores são mais agressivos quando se trata de defender os ninhos: eles atacam mais cedo e com mais intensidade do que os colegas grandões.

No ano seguinte, o veterinário Paulo McGreevy (Universidade de Sydney, Austrália) e sua equipe resolveram avaliar as características anatômicas dos cachorros e as prováveis relações com o comportamento exibido.

De acordo com McGreevy, um especialista em comportamento animal, os cachorros são excelentes para estudar as relações entre porte e temperamento porque é possível avaliar as reações de animais da mesma espécie com formatos bastante diversos de crânio.

O estudo concluiu que os cães pequenos são realmente mais agressivos em algumas circunstâncias, como a dominância em relação aos tutores, pedidos de comida (frequência e insistência), uso de urina para demarcar território e demonstrações de necessidade de atenção e afeto.

Conclusões

A observação no dia a dia parece ser confirmada por diversos estudos acadêmicos: os cachorros de raças menores são mais bravos do que os seus colegas de porte médio e grande. Mas a ciência ainda não sabe por quê.

Os motivos para esta valentia são multifacetados. Uma vez que os cães de pequeno porte convivem com os humanos há muito tempo, provavelmente eles desenvolveram estratégias tanto para cativar os tutores – mostrando-se mais meigos, gentis e indefesos – quanto para sobreviver em um “mundo grande”.

Um dogue alemão, por exemplo, não precisa de muito esforço para se situar na hierarquia do grupo: ele é grande, forte, poderoso e pode se dar ao luxo de ser dócil e brincalhão. Já um lulu da Pomerânia precisa conquistar espaço e reafirmar-se o tempo todo.

Existe outro motivo provável: os cães de grande porte quase sempre são desestimulados a demonstrar comportamentos violentos. Quando um husky siberiano puxa o tutor pela corrente, ele pode realmente provocar um acidente. O ataque de um mastim napolitano ou de um rottweiler muitas vezes é fatal e na imensa maioria das ocorrência causa ferimentos e destruição.

O ataque de um chihuahua, por outro lado, gera apenas admiração e risadas: todos acham engraçada a bravura dos nanicos em defender a casa e a família. O comportamento dominante e agressivo tende a ser valorizado e estimulado.

O tratamento cotidiano dispensado à maioria dos cachorros de raças menores também é um fator condicionante. Os nanicos muitas vezes são encarados como brinquedos ou bibelôs: eles são enfeitados, decorados e carregados no colo como se fossem bebês.

Acontece que eles não são bebês humanos: são reais descendentes dos lobos, assim como os bloodhounds e os weimaraners. Ao serem tolhidos e limitados, eles podem se estressar, ficar ansiosos e até deprimidos.

A melhor maneira de garantir o comportamento adequado de um nanico – seja ele um chihuahua, um pinscher miniatura, um poodle toy ou um yorkshire terrier – é exatamente permitir que ele viva como um cão: brincando, explorando, correndo, etc.

Para carregar no colo – ou na bolsa – é melhor adotar um bicho de pelúcia. Os pequenos, é importante lembrar, são cachorros, com todos os direitos e deveres dos melhores amigos dos humanos.

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