Trata-se de mais uma lenda urbana. Os cães capturados pela carrocinha não viram sabão, mas podem ser sacrificados.

Talvez tenha sido apenas uma confusão visual. Em São Paulo, os primeiros caminhões do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) – as populares carrocinhas – eram muito semelhantes aos carros usados para o recolhimento de carcaças nos açougues.

Outro motivo é que todos os mamíferos apresentam grande teor de sebo, um antigo ingrediente para fazer sabão. Com toda esta confusão, a população juntou X e Y e a lenda urbana de que os cães de rua capturados pela carrocinha eram utilizados para fazer sabão.

Os veículos que recolhiam carcaças de porcos e bois dos açougues realmente coletavam o material para produzir sabão caseiro. Os cães que vivem nas ruas são muito magrinhos (na maioria dos casos) e tecnicamente não forneceria matéria prima suficiente para que se transformem em “fornecedores”. Ufa!

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Os sabões industrializados substituíram, há mais de quatro décadas, a gordura animal pela vegetal na fabricação de produtos de limpeza. Mas, apesar de não servirem à indústria, os cães capturados pela carrocinha podem ter um destino cruel.

CCZ

Centros de Controle de Zoonoses são órgãos municipais que têm como funções a eliminação de animais peçonhentos e de focos do desenvolvimento de mosquitos (Aedes aegypti, Anopheles albitarsis, os pertencentes aos gêneros Leishmania, Haemagogus e Culex, entre outros).

Os cachorros de rua, que podem se transformar em vetores de doenças humanas e caninas, são alvo das carrocinhas pela possibilidade de contribuir para epidemias; além disto, muitos cães se reproduzem nos locais por onde perambulam, aumentando os fatores de risco para doenças. Além disto, eles podem causar acidentes, especialmente com crianças e idosos.

Perceba o quanto é importante adotar cachorros abandonados ao invés de comprar.

Sacrifícios

De acordo com descrições feitas por sociedades protetoras de animais, a carrocinha mata, sim. Apenas pequena parte dos cães e gatos apreendidos é devolvida aos antigos donos ou adotada por membros da comunidade. A razão é simples: pessoas interessadas na adoção de um novo pet dão preferência a filhotes e cães de pequeno porte (e este é mais um mito sobre a adoção).

A maioria dos animais apanhados pela carrocinha é sacrificada, às vezes com métodos desumanos, como as câmaras de gás, que literalmente implodem os órgãos de cães e gatos, ou de descompressão, eufemismo para uma caixa que gradualmente retira o ar ambiente, provocando uma lenta agonia, que pode se prolongar por mais de dez minutos.

Está tramitando na Câmara dos Deputados um projeto de lei do parlamentar Ricardo Izar (PSD-SP) que autoriza o sacrifício de animais apenas nos casos de animais portadores de doenças graves ou infectocontagiosas.

Outra parte é doada para servir como cobaias de laboratório, em universidades e indústrias produtoras de medicamentos e cosméticos. As experiências incluem a vivissecção (o uso das cobaias vivas em pesquisas e estudos), prática totalmente dolorosa em que, ao final, o sacrifício pode ser considerado como um ato de misericórdia. Oficialmente, porém, o CCZ explica que os animais não recolhidos são mortos com uma injeção letal.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda o sacrifício e defende que as principais formas de saúde pública são a esterilização de cães e gatos e campanhas de educação sobre a posse responsável, mas, no Brasil, muitos donos simplesmente abandonam os pets que se transformariam em um sério empecilho para uma viagem de férias.

O extermínio de cães e gatos pelo CCZ não é uma solução para o problema dos animais sem dono, não é humanitária, nem racional, nem econômica: na verdade, o método é caro e improdutivo, já que não consegue resolver a questão, que se eterniza e pode até mesmo se ampliar, especialmente nestes momentos de crise, em que os casos de abandono se tornam mais comuns.

Com relação ao controle de zoonoses, os órgãos públicos sempre têm uma explicação na ponta da língua: cães e gatos vagabundos transmitem doenças. Estudos indicam, porém, que a maior parte destes casos ocorre por negligência da população e por maus tratos com os pets.

Enquanto a população não for orientada sobre os cuidados com alimentação, medicação e convívio com os pets – e esta não é uma tarefa de um dia – continuarão existindo filhotes não desejados, expulsos de casa e eventualmente espalhando doenças.

O que pode ser feito?

Existem muitos casos de cães e gatos fujões que se tornam motivo de tristeza, ansiedade e até mesmo doenças para seus donos, especialmente as crianças. Este é um problema que pode ser facilmente resolvido com a instalação e telas e grades. Outra providência simples é fazer um RG animal (uma placa de metal com a identificação do animal, que deve ser colocada na coleira). Isto facilita o “reencontro da família” em casos de fuga ou extravio.

Em São Paulo, por exemplo, o registro dos pets é obrigatório, mas muitas cidades brasileiras ainda não oferecem este serviço. Nestes casos, a solução é improvisar, com a criação de uma placa com o nome e telefone do dono. As placas de metal para identificação são facilmente encontráveis nas pet shops de todo o país.

Um animal com plaquinha de identificação, quando é encontrado, permite que o CCZ entre em contato com o dono (em algumas cidades, é necessário pagar uma multa). Mas, mesmo sem a placa, a primeira providência para localizar o cão é entrar em contato com o órgão público.

Dificilmente é possível identificar o pet apenas pela descrição das características: o ideal é ir aos locais de recolhimento.

O “homem da carrocinha”

Apesar de não ser verdade, a ideia de que cães capturados pela carrocinha viram sabão continua sendo bastante popular. Os laçadores também se transformaram em vilões da história, sendo encarados como uma espécie de “homens do saco preto” ou de tutus marambás.

O uniforme azul (calça, colete e boné, em São Paulo) é a identificação visual dos oficiais de controle animal ou laçadores dos centros de zoonoses, nomes do cargo dos “homens da carrocinha”. Armados com laços, estes homens capturam animais vadios impiedosamente. O restante, a imaginação se encarregou de desenvolver.

Cachorros sem dono já eram capturados há muitas décadas, mas o CCZ paulistano foi criado em 1973, como resposta oficial para o combate a um surto de raiva (hidrofobia, doença canina quase sempre incurável que pode ser transmitida a humanos). Uma das medidas para conter o avanço da doença foi a captura e consequente sacrifício sumário dos cães vira-latas, além da ampliação das campanhas públicas de vacinação.

A forma violenta das ações em massa, que percorriam as ruas das cidades e literalmente jogavam os cães capturados nas ações, provocou naturalmente o sentimento de repulsa da população. A lenda urbana do homem da carrocinha e dos cachorros transformados em sabão.

O problema, no entanto, é de saúde pública. A população precisa ser orientada com relação à posse responsável de animais e os cães de rua devem ser esterilizados. Uma boa medida seria levar estes animais a santuários, até que estas populações que hoje vagam sem rumo pelas ruas sejam extintas. Alguns deles podem ter a sorte de ser adotados – inclusive por homens da carrocinha.


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