Como os cachorros encontram o caminho para casa?

Eles parecem ser equipados com GPS. Entenda como os cães encontram o caminho para casa.

Nas últimas décadas, pesquisadores de vários países vêm tentando encontrar respostas para uma pergunta que intriga a humanidade há muito tempo: como os cachorros encontram o caminho para casa? A ciência procura responder a esta dúvida.

Todos os tutores sabem que os cachorros percebem que estão próximos de casa, no retorno de um longo passeio de carro, por exemplo. Alguma coisa lhes diz que o aconchego doméstico está por perto. Mas o que seria essa “coisa”?

Como os cachorros encontram o caminho para casa?

Olfato excepcional

A hipersensibilidade aos odores é bastante conhecida entre os cães (entre outros animais: os gatos também são excelentes farejadores e mesmo algumas espécies de borboletas parecem se orientar pelo cheiro em suas migrações por centenas de quilômetros).

Existem várias histórias de cachorros extraviados que encontraram o caminho de volta para casa identificando odores familiares. O retorno, inclusive, já foi tema de filmes como “A Incrível Jornada” (1992, dirigido por Duwayne Dunham, com uma sequência filmada quatro anos depois).

No filme, três animais de estimação (dois cães e uma gata: o golden retriever Shadow, o buldogue americano Chance e a gata himalaia Sassy) se perdem da família em uma viagem e precisam atravessar o deserto da Califórnia, com muitas aventuras, até reencontrar os seus humanos.

Na vida real, em outubro de 2020, um cachorro chinês ficou famoso ao voltar para casa. Doudou também estava em viagem com a família, quando foi deixado para trás por acidente. Fiel aos seus tutores, o animal deu início a uma trajetória de 60 km em busca dos parentes, reencontrados finalmente depois de 26 dias.

Doudou tinha sete anos quando viajou com os parentes de Hangzhou, no leste da China, para o Condado de Tonglu, uma região rural relativamente distante da costa. O cão idoso farejou o caminho de volta. Ele voltou para casa magro e desnutrido, mas estava bem disposto e muito feliz no momento do reencontro, acompanhado pela imprensa do país.

Como os cachorros encontram o caminho para casa?

Kathleen é outro bom exemplo da incrível capacidade de orientação espacial dos cães. Em 2019, os tutores da cadela – um casal de idosos – tiveram de se mudar de Seminole para Prague, duas cidades de Oklahoma (centro-oeste dos EUA) distantes 35 km uma da outra.

A cachorra foi doada para amigos, porque a nova residência não permitia a presença de pet, mas ela teve dificuldades para se adaptar. Kathleen fugiu duas vezes de casa, percorrendo os 35 km da distância que a separava dos tutores.

Em 2020, um cachorro britânico chamou a atenção da imprensa. Ele foi levado de Penrhyncoch, uma vila do País de Gales, para Cockermouth, na Inglaterra (distante 400 km da casa original), onde deveria trabalhar com um rebanho de ovelhas.

Mas Pero, o cão de quatro anos, parece não ter gostado da vida de pastor. Ele fugiu da fazenda e percorreu os 400 km de volta para casa e para a família adorada. O animal não se adaptou às lides do ambiente rural.

O cérebro canino

Na verdade, o olfato não é o único sentido que determina a capacidade de orientação espacial dos cachorros. Eles usam especialmente o faro, mas associado também a imagens, texturas e sabores para criar uma espécie de mapa.

Os cientistas consideram que os cães se localizam através deste “mapa odorífero”, baseado nos diversos cheiros de determinados locais, que são coadjuvados por informações captadas pelos demais sentidos.

Desta maneira, os peludos identificam odores que não são captados pelos narizes humanos. A casa da família passa a ser identificada pelos cheiros de um posto de gasolina, um canteiro na praça, uma fábrica, etc. Tudo isso é aliado à imensa capacidade de encontrar os mais leves indícios dos cheiros dos tutores.

Esse mapa é dinâmico e sofre alterações à medida que os cheiros variam, seja por razões sazonais (umidade relativa do ar mais elevada na primavera, por exemplo), seja por questões específicas (como os sabores prediletos da família e até odores exalados em algumas doenças).

Um estudo conduzido em 2022 por Pip Johnson, professor do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Cornell (Nova York, EUA), determinou que os cães são sensíveis aos odores humanos, especialmente os dos seus tutores. A pesquisa comparou ressonâncias magnéticas de uma área específica do telencéfalo, o caudate nucleus, uma região associada à coordenação motora e ao sistema de recompensas do cérebro.

Os cães voluntários foram submetidos a cheiros de outros cães e humanos, tanto desconhecidos quanto com quem os animais já tinham alguma espécie de vínculo. O caudate nucleus registrou a maior ativação justamente durante a exposição dos cheiros de humanos conhecidos, especialmente os tutores.

Como os cachorros encontram o caminho para casa?

A pesquisa concluiu que os cachorros estabelecem referências específicas com os seus tutores, sempre relacionadas a experiências agradáveis. Para a maioria dos pets, as boas recordações estão associadas a brincadeiras e prêmios em atividades com os seus humanos.

Isto ajuda a explicar como um cachorro consegue encontrar indícios e pistas sobre a localização da família, selecionando esses cheiros entre dezenas ou centenas de outros: eles simplesmente querem voltar para o local em que são bem tratados, se sentem seguros e confortáveis.

Os polos magnéticos

Pode parecer ficção científica, mas, ao que tudo indica, os cachorros conseguem se orientar espacialmente também através dos polos magnéticos da Terra. Um longo estudo de mais de dez anos vem sendo conduzido na Universidade de Ciências da Vida, na República Checa.

A partir de 2020, a pesquisa passou a receber a colaboração de técnicos do Departamento de Ciências Biológicas do Instituto Politécnico da Universidade Estadual da Virgínia (Virginia Tech, costa leste dos EUA).

Há dois anos, 27 cães, utilizados em mais de 600 experimentos, foram equipados com equipamentos de GPS e coleiras com câmeras. Eles foram soltos em áreas florestais da República Checa. Todos os animais de teste conseguiram encontrar o caminho de volta para casa.

Mas, enquanto 13 deles se orientaram através de técnicas de rastreamento – eles voltaram seguindo a trilha por onde tinham sido levados pela floresta – os outros 14 usaram uma nova rota totalmente diferente.

Todos os cachorros que resolveram estabelecer um novo trajeto, diferente do original, descreveram inicialmente uma longa curva, de cerca de 20 metros, ao longo do eixo longitudinal do planeta.

Eles escolheram o eixo norte-sul, mesmo quando o caminho para casa não passava por essas direções. Os cães orientados por esta “bússola natural” conseguiram encontrar o caminho com mais rapidez. Isto significa que eles não apenas chegaram em casa mais rápido, mas também economizaram energia no trajeto.

Os novos estudos da universidade checa comprovaram pesquisas anteriores: Schmidt-Koenig e Keeton (1978, Universidade de Tubingen, Alemanha), Wiltschko e Wiltschko (1995, Universidade de Frankfurt, Alemanha) demonstraram já haviam demonstrado que grande número de espécies animais se baseia em dados magnéticos para se localizar, ao lado de pistas visuais, olfativas, acústicas, celestes e idiotéticas (internas, já processadas pelo cérebro a partir de informações anteriores).

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