A piometra em cadelas é uma das doenças ginecológicas mais frequentes entre as fêmeas caninas, podendo também afetar gatas e outras espécies de fêmeas mamíferas. Trata-se de uma infecção uterina grave, que exige atenção imediata dos tutores e acompanhamento veterinário rigoroso.

O que é a piometra
O termo “piometra” tem origem grega: “pio” significa pus, enquanto “metra” remete ao útero. Na prática, a palavra descreve exatamente o que ocorre no organismo do animal — o acúmulo de secreção purulenta dentro das camadas uterinas, que incluem o endométrio, o miométrio e o perimétrio.
Causas e fatores que predispõem à infecção
A piometra em cadelas está diretamente relacionada ao ciclo reprodutivo. Durante determinada fase do cio, há elevação significativa da progesterona, hormônio que, embora fundamental para preparar o corpo da fêmea para uma possível gestação, também favorece o surgimento da infecção.
Esse hormônio provoca dois efeitos centrais: aumenta a secreção das glândulas presentes no endométrio e promove o fechamento da cérvix, estrutura que separa o útero da vagina. Com a cérvix fechada, o líquido produzido internamente não consegue ser drenado para o meio externo. Como durante o cio a cérvix permanece aberta, microrganismos podem migrar para o interior do útero; quando a progesterona sobe e a cérvix se fecha, esses agentes ficam retidos em um ambiente rico em nutrientes, ideal para sua multiplicação.
Além disso, a progesterona dificulta a contração do miométrio, a camada muscular responsável por ajudar na eliminação de secreções, agravando ainda mais o quadro.
Outros fatores que aumentam o risco de piometra incluem:
- Pseudociese (falsa gravidez), comum em cadelas;
- Cistos ovarianos;
- Uso de anticoncepcionais hormonais veterinários;
- Neoplasias ovarianas.
Vale destacar que essas alterações hormonais também podem levar à hiperplasia endometrial cística, condição frequentemente identificada em exames de ultrassom e considerada um estágio anterior ao desenvolvimento da piometra.
Sinais clínicos que merecem atenção
Os sintomas da piometra em cadelas costumam ser bastante característicos. O animal apresenta prostração, apatia, perda de interesse por atividades cotidianas, vômitos, febre e redução do apetite. É comum também observar aumento na ingestão de água e maior frequência urinária, já que o processo infeccioso reduz a produção do hormônio antidiurético, resultando em maior diurese.
Outro sinal relevante é a secreção vaginal, que pode variar entre aspecto purulento, esbranquiçado, amarelado ou até amarronzado, com consistência semelhante a doce de leite. Aqui existe uma distinção importante: a piometra pode ser classificada como aberta ou fechada, dependendo do estado da cérvix. Na forma fechada, não há corrimento visível, pois o conteúdo infeccioso permanece retido no útero — o que, inclusive, agrava o quadro clínico, já que o órgão se distende progressivamente.
Diagnóstico: diferenciando piometra de outras condições
É fundamental diferenciar a piometra de uma vulvovaginite, infecção localizada na vulva e vagina que também pode causar secreção, mas sem o mesmo risco sistêmico. Para isso, exames complementares são indispensáveis.
Segundo o Dr. Danile Pinho, o exame de sangue pode revelar leucocitose, ou seja, aumento expressivo de células de defesa, sinal clássico do processo infeccioso. Alterações bioquímicas também costumam surgir. Contudo, o exame ultrassonográfico é considerado o padrão-ouro para confirmação diagnóstica, permitindo visualizar com precisão o estado do útero e evitar intervenções cirúrgicas desnecessárias.
A anamnese detalhada — conversa entre tutor e veterinário sobre o histórico do animal, data do último cio e mudanças comportamentais — também é essencial para fechar o diagnóstico corretamente.
Tratamento: por que a cirurgia é o mais indicado
O tratamento padrão para a piometra em cadelas é a ovariossalpingohisterectomia, cirurgia que remove ovários e útero. Embora existam relatos na literatura veterinária de manejo conservador em fêmeas jovens, reprodutoras e em estágio inicial da doença, essa abordagem é arriscada e reservada a casos muito específicos. De forma geral, tratamentos apenas com antibióticos tendem a ser insuficientes, com risco elevado de recidiva.
Prevenção
A prevenção mais eficaz continua sendo a castração (ovariossalpingohisterectomia), já que a remoção dos ovários e do útero elimina tanto o estímulo hormonal quanto o órgão onde a infecção se desenvolve. O uso de anticoncepcionais hormonais deve ser evitado, pois a progesterona sintética presente nesses produtos aumenta significativamente o risco de piometra.
A piometra em cadelas é uma emergência veterinária que exige diagnóstico rápido e tratamento adequado. Reconhecer os sinais precocemente — como apatia, febre, secreção vaginal e aumento da ingestão de água — pode ser decisivo para a recuperação do animal. Manter acompanhamento veterinário regular e considerar a castração como medida preventiva são passos essenciais para proteger a saúde reprodutiva das fêmeas.