Surdez em cães: como identificar e cuidar

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A surdez pode ser congênita ou surgir com a idade. Saiba como identificar e cuidar de um cão surdo.

Identificar a surdez em cães recém-nascidos é relativamente fácil. Passadas algumas semanas de vida, eles não reagem da mesma forma que os irmãos, são mais tranquilos e demoram mais tempo para começar a explorar o ambiente. Mas as deficiências auditivas são mais comuns com o avanço da idade: cerca de 40% dos idosos sofre de surdez em grau maior ou menor. Algumas doenças também podem reduzir a acuidade auditiva do seu cachorro.

Quando a surdez acomete um cachorro adulto, a deficiência geralmente se instala de forma gradual, a menos que a causa seja decorrente de um trauma que afete diretamente os tímpanos, como uma queda. Alterações no córtex auditivo dos cães são relativamente raras, uma vez que a área responsável pela captação e interpretação dos sons fica na região central-posterior do cérebro.

Por isso, identificar a surdez em cães adultos não é uma tarefa fácil. Os tutores precisam ficar atentos a sinais sutis, que só se tornam mais evidentes quando a perda auditiva já se tornou mais grave. Mas, mesmo que a detecção do problema seja tardia, esta condição precisa ser avaliada por um veterinário.

Cachorros albinos têm maior possibilidade de perder a audição na idade avançada. Estes cães, além da pelagem branca característica, apresentam a pele rosa-claro, trufa rosada, mento (queixo) e pálpebras despigmentados e olhos claros. São muito sensíveis à luz do Sol, mas normalmente não apresentam anomalias que inspirem cuidados especiais, além de terem de ser mantidos na sombra, sempre com muito protetor solar.

Surdez em cães

Os sinais da surdez em cães

Procure observar o seu pet. São sinais da perda da audição:

• ele reage com surpresa a situações corriqueiras. O cachorro não percebe quando alguém chega em casa ou mesmo se aproxima dele, e pode reagir de forma agressiva, inclusive com os membros da família;

• ele ignora alguns estímulos sonoros aos quais reagia de imediato, tais como buzinas, freadas, toques de campainha, miados, etc.;

• ele ignora os comandos de voz dos tutores, inclusive aqueles a que respondia rapidamente;

• ele late menos.

As causas da surdez nos cachorros

A surdez é uma deficiência multifatorial. Em grande número de casos, ela está associada a determinantes genéticos. Algumas raças, como os dálmatas, collies, dachshunds e pastores de Shetland, são mais suscetíveis ao desenvolvimento da surdez. Entre os dálmatas, 30% são surdos.

Por algum motivo que a Medicina Veterinária ainda não compreende completamente, os cães portadores de heterocromia (olhos de cores diferentes) apresentam maior propensão à surdez, que pode surgir em qualquer idade e é quase uma regra nos animais com sete anos ou mais. Ocorre o mesmo com os gatos.

Certas infecções virais, como a cinomose e a parvovirose (que são doenças evitáveis com a vacinação regular), podem causar surdez como sequela permanente nos cães sobreviventes (entre 20% e 25% dos animais infectados).

Os cachorros de orelhas longas e pendentes, como o basset hound e o cocker spaniel (inglês e americano) sofrem mais frequentemente com infecções e inflamações nas orelhas, que podem ser causadas por vírus, bactérias e fungos. Estas doenças podem se tornar crônicas e atingir o ouvido interno, prejudicando a sensibilidade auditiva.

É importante lembrar que todos os cães precisam ter as orelhas higienizadas depois de tomarem banho ou brincarem na água. Os “orelhudos” merecem um cuidado maior, inclusive quando bebem água. Em alguns casos, recomenda-se prender as orelhas no alto da cabeça no horário das refeições, para evitar a umidade constante e as doenças decorrentes.

Alguns medicamentos, quando ministrados em altas dosagens ou por períodos prolongados, podem interferir negativamente na audição. É o caso, por exemplo, dos aminoglicosídeos, antibióticos empregados no tratamento de diversas infecções bacterianas.

Acidentes graves, com choques na cabeça, também comprometem a audição. Além disso, problemas cardiovasculares, como um acidente vascular cerebral (cachorros também podem sofrer AVC), caso atinjam o córtex auditivo, podem levar à surdez.

Hiperadrenocorticismo

Este palavrão é o nome técnico da síndrome de Cushing, que também prejudica a audição. Trata-se de uma alteração hormonal na hipófise e nas glândulas adrenais, que aumenta a produção do cortisol (o hormônio do estresse) e acelera o metabolismo. A síndrome pode ser causada também por tumores nos rins.

A síndrome de Cushing pode acometer cães de todas as idades, independente do sexo e da raça, mas os idosos são mais prejudicados. Estudos indicam que os terriers são mais propensos ao distúrbio provocado desequilíbrio hormonal.

São sintomas da síndrome de Cushing:

  • sede excessiva e aumento do volume da urina;
  • afinamento da pele, que se rompe com mais facilidade;
  • alteração do tom da pele, de rosado para acinzentado;
  • aumento do apetite (que pode se tornar exagerado), com o consequente ganho de peso, visível especialmente na região do abdômen);
  • presença de vasos sanguíneos aparentes;
  • perda de pelos;
  • hiperatividade.

Sem tratamento, a síndrome compromete a qualidade de vida, pois provoca fadiga crônica, agressividade, atrofia muscular e comprometimento da audição, tato e olfato. O ciclo reprodutivo das fêmeas também é alterado.

O diagnóstico da surdez no cachorro

Caso os tutores suspeitem de que os seus cachorros não estejam ouvindo bem, devem observá-los atentamente e consultar um veterinário com o máximo possível de informações. A surdez prejudica o bem-estar e facilita o envolvimento em acidentes.

A acuidade auditiva dos pets precisa ser avaliada regularmente desde a infância. Um teste simples, que pode ser feito em casa, é expor o cachorro a um som desconhecido (porque eles podem simplesmente ignorar um som cotidiano, mesmo que tenha sido motivo de ansiedade e medo anteriormente – isto significa que eles aprenderam que o som aterrorizante não representa perigo de fato).

Para fazer o teste, deixe o pet em um local que ele considere seguro e confortável. Os melhores ruídos são os agudos, como o som de um apito (que tem também a vantagem de ser reproduzido com facilidade).

Emita o som fora do alcance visual do cachorro, para que ele não possa identificar a origem do ruído. Em condições normais, ele se esforçará para descobrir o motivo da novidade. Se o barulho parecer vir de fora, o pet tentará escapar do ambiente – ou chorará pedindo ajuda, de acordo com o temperamento.

Um cachorro surdo, ou com a audição debilitada, não esboçará qualquer reação. Do contrário, a curiosidade falará mais alto. O teste pode ser feito com filhotes a partir dos 25 dias de vida, mesmo que eles ainda estejam mamando (mas é preciso afastar a mãe). Os filhotes começam a discernir sons apenas depois de três semanas no nascimento.

Existe tratamento para surdez nos cães?

A surdez congênita não pode ser curada, nem reduzida. O causador da deficiência é um gene autossômico (não relacionado às características sexuais) recessivo, mas presente no DNA do pai e da mãe. Por isso, os cães de determinadas raças são mais afetados pela surdez.

A deficiência relacionada ao avanço da idade tampouco tem solução. A perda de audição é progressiva, até chegar à incapacidade total de apreender quaisquer sons, mesmos os agudos em volume alto.

Mesmo assim, os sinais de surdez não podem ser negligenciados. A perda da audição pode estar relacionada a outros problemas de saúde, que precisam ser diagnosticados e tratados, para não interferir na qualidade de vida dos pets.

Em uma avaliação no consultório, além dos testes de barulho e análise com otoscópio, o veterinário fará um exame completo e solicitará exames laboratoriais e, se for o caso, também de imagem, para detectar possíveis infecções, tumores, etc.

O prognóstico

Um cachorro surdo pode conviver normalmente com a família humana e com outros animais de estimação. Se ele tiver perdido a audição já adulto, serão necessárias apenas algumas adaptações na comunicação, mas também é possível educar um filhote sem o recurso dos sons.

O adestramento de um cachorro deficiente auditivo segue as mesmas etapas: apresentação da habilidade, repetição, recompensa pelos sucessos, reprimenda pelas tentativas erradas. O que muda é que isso precisa ser feito sem o auxílio da palavra, mas dos gestos. Não existe uma linguagem universal para surdos: tutor e pet precisam inventar um idioma próprio.

Os cachorros se comunicam com os humanos especialmente através do tom de voz. Apesar de conseguirem aprender o significado de dezenas de palavras, é especialmente o tom da voz que dirige o aprendizado.

Lanternas e canetas de laser facilitam a comunicação à noite e em locais de pouca luminosidade. Mas lembre-se de nunca focar a luz diretamente nos olhos do pet: além do desconforto visual, a intensidade pode até mesmo lesar a retina ou a córnea.

Felizmente, como os cachorros não conseguem falar, eles se tornaram exímios intérpretes da linguagem corporal. Desta forma, os comandos verbais podem ser facilmente adaptados para gestos com a cabeça, os braços e as mãos. É surpreendente a capacidade de aprender que eles demonstram.

Com a perda da acuidade visual, é comum que os cães desenvolvam ainda mais outros sentidos, como o olfato e a visão. À medida que vão ficando surdos, passam a enxergar e captar cheiros de forma cada vez melhor. Aparentemente, isto também acontece com humanos surdos e cegos.

Os pets não sofrem em função do preconceito: eles ouviam até pouco tempo atrás, os sons foram ficando cada vez mais fracos, até que um dia desapareceram. Para eles, é simples assim. Deixar de ouvir para “ver” as palavras nas mãos dos tutores é quase natural. E, como a perda da audição é quase sempre gradual, há tempo de sobra para a adaptação.

Os tutores, no entanto, precisam ficar atentos para prevenir acidentes. Nos passeios diários, o ideal é trocar a coleira por uma guia curta, que facilita a chamada de atenção e impede que eles tomem 50 ou 60  centímetros de dianteira – o que, em um cruzamento movimentado, pode ser extremamente perigoso.