Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?

De acordo com a FCI, quase 30 raças de cachorro correm o risco de extinção.

Espécies surgem e desaparecem na natureza de acordo com as condições objetivas: clima, topografia, distribuição das chuvas e ventos, etc. A ação humana também pode determinar a extinção de algumas espécies. No caso das raças caninas, algumas estão entrando em extinção simplesmente porque perderam a “utilidade”.

Além de questões pontuais, o planeta já vivenciou cinco grandes extinções em massa, todas elas causadas por catástrofes naturais. A última delas ocorreu há 66 milhões de anos e provocou a morte de 75% das espécies – entre elas, foram extintos todos os dinossauros.

Os motivos do sumiço dos cães

No caso das raças de cachorro, no entanto, elas podem entrar em extinção simplesmente porque não há mais interesse, seja porque os peludos não exercem funções úteis para os humanos, seja porque “saíram de moda”.

Há outros motivos que interferem na manutenção de algumas raças de cachorro. O consumo de carne canina (e, séculos mais tarde, o tráfico ilegal desta mercadoria) é uma das principais razões. Mais recentemente, diversos países também proibiram a criação de “raças perigosas”.

Por exemplo: no Chipre, na Noruega e na Dinamarca, os cães das raça pitbull, tosa inu, dogo argentino e fila brasileiro não são aceitos como animais domésticos. Outros países, como a França e Portugal, proíbem os cruzamentos e restringem a circulação desses cães nas ruas.

Algumas raças parecem nascer já fadadas à extinção. Nos EUA, nos últimos 20 anos, os cachorros muito pequenos estão na moda: eles são chamados “pocket dogs” (cães de bolso). O problema é que criadores inescrupulosos vêm obtendo nanicos a qualquer custo.

Diversos acasalamentos indiscriminados envolvendo raças como lulu da Pomerânia, poodle toy, yorkshire terrier, maltês, havanês, shih tzu e pug têm gerado filhotes portadores de deficiências físicas, como surdez e cegueira.

Visando apenas ao lucro, esses criadores investem nos menores cães de cada ninhada – que são os mais frágeis, igualmente portadores de anomalias genéticas. O resultado é que boa parte dos filhotes acaba sendo sacrificada.

Os que atingem a vida adulta são, em maioria, estéreis ou apresentam limitações para o acasalamento. Além disso, diversos cães de raça pura, que poderiam garantir a preservação das raças, acabam morrendo nessas experiências totalmente desnecessárias.

A FCI

A Federação Cinológica Internacional é uma organização canina mundial. Sediada em Thuin (Bélgica), a FCI congrega associações de 95 países (inclusive o Brasil, através da Confederação Cinológica Brasileira – CBKC) e reconhece 344 raças de cachorros.

O objetivo da FCI é a promoção da criação das raças caninas com base em regras preestabelecidas (porte, pelagem, etc.), para assegurar a boa saúde e as características anatômicas e comportamentais dos peludos.

De acordo com parâmetros da FCI, para uma raça se perpetuar, é necessário o nascimento de pelo menos 300 filhotes a cada ano. Não existe um levantamento oficial, mas, com base nos registros da federação, é possível identificar as raças caninas que estão enfrentando problemas.

As prováveis raças caninas que estão entrando em extinção são, portanto, de acordo com a FCI, aquelas que têm apresentado, ano a ano, decréscimo nos registros de pedigree. Este não é um critério científico, mas indica a queda nas populações, que é particularmente perigosa nos locais em que as raças foram desenvolvidas originalmente.

O skye terrier

Este cachorrinho escocês abre a lista das raças caninas que estão entrando em extinção. O Skye terrier é um personagem antigo da história da Escócia: o cachorro de pequeno porte e pelos longos leva o nome da ilha de Skye, uma das maiores da costa escocesa, no noroeste do país.

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?
Cachorro da raça skye terrier

O skye terrier é considerado o mais antigo terrier do mundo: ele é conhecido pelo nome há pelo menos 400 anos e há ilustrações de cães parecidos desde o século 13. Desenvolvido por fazendeiros locais, a principal função destes peludos era a caça aos roedores. Posteriormente, ele foi empregado também na caça à raposa.

A raça era muito apreciada no século 19, chegando a circular pelos salões da corte da rainha Victoria. Em 1940, antes do início da Segunda Guerra Mundial, o skye terrier já estava praticamente extinto. Atualmente, há apenas 30 registros oficiais.

Outras raças em perigo

Desde o século 19, os cachorros conquistaram um novo status no relacionamento com os humanos: o de membros da família. Até então, os peludos eram apenas “instrumentos de trabalho”: guardiães, protetores, caçadores, etc.

As especialidades das raças já foram motivo de riscos de extinção. Na Europa, a partir do século 14, com o renascimento das cidades (e a consequente ampliação das populações urbanas), as populações de algumas raças caíram sensivelmente. Alguns perdigueiros (caçadores de perdizes) e cocker (caçadores de galinholas) quase desapareceram.

O século 20 é conhecido pelos avanços tecnológicos obtidos pela humanidade. Por outro lado, é o período em que (inclusive por conta da tecnologia avançada) os conflitos bélicos mais provocaram mortes. A fome também se acentuou em diversas partes do mundo.

Os cachorros, mesmo os maiores e mais resistentes, são totalmente dependentes da humanidade – eles foram retirados da natureza e necessitam do nosso suporte para sobreviver. No século 20, com todas as turbulências, 40 raças caninas foram extintas.

Fora de moda

Algumas raças de cachorro conquistaram a fama depois de circularem no colo de alguns notáveis. É o caso dos pugs, imprescindíveis na corte de Napoleão Bonaparte (eram os prediletos da imperatriz Josefina, da França), ou dos border collies, que conquistaram a rainha Victoria, da Grã-Bretanha e do Império Britânico – boa parte do mundo, no século 19.

Os cães de carruagem perderam a utilidade quando troles puxados a cavalos deram lugar aos automóveis. Um dos poucos sobreviventes é o dálmata. Outros tiveram melhor sorte: dispensados de caçar raposas, os beagles se tornaram populares cães de companhia no Reino Unido.

No Brasil, temos um exemplo clássico: o pequinês. Especialmente nas cidades grandes (e nos apartamentos pequenos), havia pelo menos um destes cãezinhos em cada família. A partir dos anos 1990, com a chegada de outras raças, o pequinês saiu de moda e hoje em dia é difícil encontrá-lo nas ruas e praças. Outras raças também estão entrando em extinção pelo mesmo motivo:

pastor da Mantiqueira – a raça nem sequer obteve reconhecimento internacional e já corre o risco de desaparecer. Também chamado de “policialzinho”, o pastor da Mantiqueira é semelhante ao correspondente alemão, mas de menor porte. Ele deve ter chegado à região Sudeste acompanhando peões e tropeiros europeus. Restam algumas centenas de indivíduos e a SOBRACI (Sociedade Brasileira de Cinofilia) é uma das poucas entidades que tenta preservar a raça;

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pastor da Mantiqueira – Foto: Wikimedia Commons

stabyhoun – é um cão de aponte (ele indica a direção que a caça tomou) nativo dos Países Baixos, considerado muito raro: há menos de 3.500 indivíduos registrados oficialmente. A raça já estava em declínio, mas a proibição formal da caça à raposa, em 2011, reduziu ainda mais o interesse;

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?
stabyhoun – Foto: Freepik

otterhound – é um ancestral do terrier de pelo duro e dos foxhounds antigos. O otterhound (cão de lontra) pode ser observado em ilustrações de 1.000 anos atrás. Desde que a caça foi proibida, nos anos 1990, ele entrou em decadência. Alguns criadores tentam reviver a raça, mas estima-se que haja apenas 1.000 deles atualmente. São cães ativos, resistentes ao frio e praticamente incansáveis;

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?
otterhound – Foto: Wikimedia Commons

sealyham terrier – desenvolvido no século 19, para a caça de lontras e texugos, já foi muito popular na Inglaterra. É um cãozinho branco muito simpático, com pernas curtas e barbas longas. É corajoso, dinâmico, cheio de energia e ágil a ponto de acompanhar cães de maior porte em uma corrida. O sealyham já foi fotografado no colo de artistas como Elizabeth Taylor e Alfred Hitchcock, mas, em 2008, havia apenas 43 registros;

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?
sealyham terrier – Foto: Wikimedia Commons

podengo português – é uma raça muito antiga, com características representadas em pinturas rupestres de três mil anos atrás. Os animais de porte médio ainda são relativamente comuns na Europa, mas os pequenos estão desaparecendo. Na Inglaterra, onde sempre houve a maior concentração de podengos pequenos, há apenas 500 registrados. É mais um cão de caça que “perdeu o charme”.

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podengo português – Foto: Wikimedia Commons

Os violentos

Considerados violentos, agressivos e até assassinos, diversos cães têm sido banidos de muitos países. Em alguns casos, novas leis determinaram a extinção, mas garantiram a vida para os animais já existentes, desde que fossem esterilizados.

Em certos países, no entanto, tão diferentes quanto a Austrália e Chipre, a legislação determinou o abate puro e simples dos cães ferozes – uma tentativa de eliminar a violência empregando violência.

A partir dos anos 1990, diversas legislações foram desenvolvidas e como algumas raças (especialmente os cães do tipo bull, mas também o dogo argentino e o fila brasileiro) estão proibidas em vários locais, a extinção pode ocorrer no curto ou médio prazo.

Tosa inu – trata-se de um cão de briga japonês, descendente dos poderosos shikoku inu, um lutador popular no país desde o século 14. A raça não pode ser criada na Austrália e na Nova Zelândia, dois países que tinham as maiores populações até a Segunda Guerra Mundial;

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?
Tosa inu – Foto: Wikimedia Commons

fila brasileiro – o problema do representante do nosso país é a capacidade que ele apresenta de se adaptar a diferentes biomas e de se reinserir na natureza, fato observado comumente por aqui. Na Austrália, Nova Zelândia, países nórdicos da Europa e até algumas ilhas do Caribe, o fila brasileiro não é bem-vindo;

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?
fila brasileiro – Foto: Wikimedia Commons

cane corso – ele vem sobrevivendo há mais de dois mil anos, mas está dando mostras de exaustão. Descendente do molosso romano, o cane corso é considerado muito violento. A raça quase foi extinta na Itália nos anos 1970. Restam poucos exemplares no país de origem;

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cane corso – Foto: Wikimedia Commons

boerboel – a raça, uma das poucas nativas da África com reconhecimento internacional, é descendente de cães mastins europeus, levados para o sul do continente no início do século 19. O boerbel foi empregado como cão de briga na África do Sul, lutando com cavalos e touros. Oficialmente, há apenas 73 cães da raça registrados oficialmente;

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?
boerboel – Foto: Petz.com.br

dogue canário – este caçador solitário destacou-se em vários pontos da Europa nos séculos 16 e 17. Silencioso e muito ágil, apresenta eficácia muito superior aos demais canídeos. Foi banido dos países nórdicos, mas ainda pode ser admirado nas ilhas Canárias, onde reaprendeu a viver em grupos.

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dogue canário – Foto: Wikimedia Commons

Animais de abate

Os nossos melhores amigos são considerados “gado de corte” em diversos países. Trata-se de uma questão cultural, mas a situação dos peludos é calamitosa em alguns países. Todos os anos, por exemplo, criadores da Tailândia exportam cerca de um milhão de cães para a China e o Vietnã, os maiores consumidores (no Vietnã, aliás, a população canina é extremamente baixa, independente da raça).

Na Indonésia, Filipinas e Malásia, os cachorros também são considerados iguarias, mas são servidos apenas nas festas de fim de ano, nos meses mais frios. Mesmo assim, há um sério descompasso entre produção e consumo.

O jindo gae é uma raça encontrada apenas em algumas ilhas ao longo da península da Coreia (dividida atualmente em dois países: Norte e Sul). Existem apenas algumas centenas de exemplares protegidos por leis locais, mas os cães da raça continuam sendo muito apreciados – em assados, caldos e sopas.

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jindo gae – Foto: Pinterest

O cão de Foo (a palavra chinesa significa prosperidade e bênção) vive há séculos no noroeste do país. Os cães da raça são guardiães dos tempos (na China, eles são chamados de leões guardiães) e, no passado, eram sacrificados com o objetivo de manter afastados os maus espíritos. Atualmente, eles continuam servindo como alimento, especialmente durante práticas para atrair boas energias). Restam apenas algumas centenas no norte do país.

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?
cão de Foo

Já o chow-chow, originário da China, está fora de moda no país natal: cada vez menos pessoas se interessam em criar cães da raça. Algumas linhagens da raça estão sendo mantidas em mosteiros budistas, mas os monges têm rivais fortes: a carne do chow-chow é muito apreciada na Mongólia e na Manchúria.

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?

Outros cães orientais estão em risco de serem extintos por causa das preferências e tradições culinárias. É o caso, por exemplo, das seguintes raças:

formosan – o consumo é proibido em Taiwan desde 2004. Mesmo assim, a raça já foi declarada extinta pelo menos quatro vezes. O governo da ilha dissidente estima que haja menos de 50 exemplares vivos;

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formosan – Fonte: Pinterest

cão de crista dorsal – nativo da Tailândia, era considerado vira-lata no país. 2003, no entanto, a raça está sendo reconsiderada e hoje é muito valorizada. Os criadores têm se esforçado para acasalar e obter filhotes dos menos de 1.000 espécimes cadastrados no país;

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cão de crista dorsal

pungsan é o símbolo da Coreia. Criado originalmente como cão de caça nas montanhas de Kaema (Coreia do Norte), ele é um monumento nacional no país. Mesmo assim, é muito perseguido pelos cozinheiros coreanos, principalmente por ser considerado afrodisíaco.

Quais raças de cachorro estão entrando em extinção?
pungsan

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