A gravidez das cadelas – sintomas e cuidados

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Esta é uma fase delicada. Conheça todas as etapas da gravidez das cadelas.


A gravidez das cadelas é semelhante em muitos pontos à das mulheres humanas. Trata-se de uma importante adaptação evolutiva que oferece proteção muito maior aos filhotes ainda não nascidos.

A gestação interna dispensou ovos e ninhos e garantiu que os mamíferos se espalhassem por todo o planeta – nas planícies e montanhas, rios e mares, desertos e regiões polares. Há dezenas de milhões de anos, as fêmeas de alguns animais adaptaram-se e começaram a gerar as crias dentro do próprio organismo. Na época, os dinossauros estavam saindo de cena e os mamíferos saíam das tocas para conquistar o mundo. Estes eram os nossos ancestrais – e também dos cachorros. Assim surgiu a gravidez.

De lá para cá, muita coisa mudou. Alguns animais não desenvolveram glândulas mamárias: bebês ornitorrincos se alimentam lambendo a pele das mães, que “suam” leite. Os filhotes de cangurus nascem imaturos, agarram-se aos pelos das mães e instintivamente procuram o marsúpio, uma bolsa ventral com mamas em que eles completam o desenvolvimento.

Todos os demais, no entanto – dos musaranhos pigmeus às baleias azuis, cães e humanos
incluídas –, completam o desenvolvimento fetal dentro do útero e nascem prontos para
enfrentar o mundo – ou quase isso.

A gravidez das cadelas - sintomas e cuidados
Ensaio fotográfico da linda cadela Serena (Karine Melo Fotografias)

As características da gravidez das cadelas

A gravidez das cadelas dura de 58 a 65 dias. As fêmeas maiores apresentam gestação
mais longa, mas esta não é uma regra absoluta. O parto alguns dias antes ou alguns dias
depois do esperado é considerado “a termo”, ou seja, em condições normais.

Ao final destes dois meses (pouco mais, pouco menos), nascem de três a seis filhotes –
outra regra que também não tem nada de absoluta. A ninhada mais numerosa (oficialmente registrada) pertence a Lena, uma foxhound americana do Estado da Virgínia que, em 1944, deu à luz 23 filhotes, dos quais 14 sobreviveram.

As cadelas raramente têm apenas um filhote por gestação. Explica-se: as cadelas passam
de sete a 14 dias liberando óvulos e todos eles podem ser fecundados. Mesmo que o cio
aparente seja de apenas dois ou três dias, elas podem estar férteis um pouco antes e um
pouco depois deste período e os óvulos permanecem viáveis por alguns dias.

As fêmeas podem ter, na mesma ninhada, crias de pais diferentes. Isto é bastante comum
entre as cachorras com acesso à rua (e também às cadelas abandonadas), que podem
cruzar com dois ou mais parceiros. O primeiro período fértil pode ocorrer entre seis e 18 meses de vida. Cadelas de porte pequeno geralmente chagam à puberdade mais precocemente (porque completam o desenvolvimento físico de forma mais rápida).

Isto não quer dizer que as cachorras parem de crescer depois de entrar no primeiro cio.
Significa apenas que a puberdade só pode acontecer depois que os ossos da pélvis estão
completos e conformados. E, como a cintura pélvica faz a articulação entre o tronco e as
pernas (membros posteriores), os cachorros grandes precisam de mais tempo para crescer e atingir a maturidade sexual.

Os cachorros molossoides (com peso acima de 45 quilos) podem levar até 24 meses até o
pleno desenvolvimento físico. É o caso do São Bernardo, do bloodhound e do mastim
napolitano, por exemplo, entre muitas outras raças.

O ciclo estral da gravidez canina

As cachorras apresentam um ciclo estral longo, que pode durar entre seis e oito meses. São quatro fases:

anestro – dura até 120 dias e caracteriza-se pela total abstinência sexual. É a fase de
descanso do organismo, com produção baixa da progesterona e do estrogênio, os dois
principais hormônios sexuais femininos;

proestro – o aumento acelerado da produção de estrogênio provoca a dilatação da vulva e o relaxamento do canal vaginal. O útero começa a formar e manter o endométrio, tecido de revestimento interno do órgão em que se fixarão os embriões no caso de fecundação.

Perdas de sangue são comuns (não se trata de menstruação), mas podem passar
despercebidas, principalmente nas fêmeas muito peludas (cachorros se lambem o tempo
todo e as secreções podem não ser notadas). Este período dura por volta de dez dias e os
feromônios em alta começam a atrair os machos, mas as cadelas ainda não permitem o
cruzamento;

estro – é a fase conhecida como cio. Dura até dez dias e nesta fase ocorrem as cópulas. A produção de estrogênio diminui gradualmente, enquanto a de progesterona aumenta, para preparar o organismo em caso de gravidez. Os sangramentos são visíveis: é a
menstruação, ou eliminação dos óvulos não aproveitados. As fêmeas mantêm a capacidade de engravidar porque, apesar de alguns óvulos estarem sendo descartados, outros continuam sendo liberados pelos ovários;

diestro – o estrogênio passa a apresentar níveis cada vez menores, mas a produção de
progesterona continua em alta, tanto para as fêmeas grávidas, quanto para as que não
cruzaram ou sofreram abortos. Os corrimentos neste período são rosados, formados
basicamente por muco vaginal. A vulva retoma o tamanho normal e completa-se o ciclo, que pode ser prolongado, no caso de parto, até o final da lactação.

Muitas cadelas, durante o diestro, desenvolvem a chamada gravidez psicológica, com
alguns sintomas de gestação (inclusive aumento do peso e da cintura ventral), mesmo que não tenham tido contato com machos. Esta é uma estratégia útil na vida selvagem, em que todas as fêmeas adultas colaboram na criação dos filhotes – inclusive produzindo leite. No convívio com os humanos, a gravidez psicológica pode acarretar alguns problemas de saúde emocional e física.

Ao contrário das humanas, as cadelas, assim como as gatas e outras mamíferas, não
conhecem a menopausa. Durante toda a vida – mesmo que ela se prolongue até os 16 ou
18 anos –, elas repetirão periodicamente o ciclo estral, que só desaparece com a castração ou com o desenvolvimento de doenças no aparelho reprodutor.

Com o avanço da idade, pode ocorrer que o ciclo estral seja mais prolongado. Desta forma, o cio pode ocorrer a cada 12 ou 15 meses. Nas cadelas criadas apenas no convívio com seres humanos, os sinais visíveis do cio podem desaparecer, mas os sintomas físicos
continuam se repetindo.

Os sintomas da gravidez

Os sinais clássicos da gravidez são os seguintes:

• o fluxo vaginal se altera, tornando-se mais espesso e com menor presença de sangue.
Vale dizer que sangramentos não significam ausência de gravidez e vice-versa;

• nas primeiras duas semanas, as cadelas grávidas demonstram pouco apetite. Também
não demonstram interesse em atividades intensas: elas poderão passar duas horas ou mais deitadas, acompanhando o movimento, ou demonstrar algum mal-estar, como se tivessem comido de forma excessiva;

• ao fim do primeiro mês, o apetite volta com força. As cadelas parecem mais carinhosas e, a partir daí, começam a procurar um “ninho”, um local quente, fresco e seguro para acolher os filhotes. Cachorros e gatos não sabem que as paredes da casa irão continuar onde estão, nem que, em caso de frio, podem pegar um agasalho no armário. Eles precisam ser precavidos;

• neste segundo mês, a barriga já se mostra volumosa. As mamas crescem, preparando-se para a amamentação (em alguns casos, o leite pode começar a escorrer duas ou três
semanas antes do parto). Uma dachshund, por exemplo, dará impressão de que caminha
arrastando a barriga no chão. De forma geral, as cadelas grávidas parecem ficar mais
baixas – justamente porque estão mais gordas e menos ágeis.

Os cuidados da gravidez das cadelas

Gravidez não é doença, mas é uma etapa da vida que requer alguns cuidados. Além de
estarem atentos a qualquer anormalidade, os tutores precisam providenciar pelo menos
uma visita ao veterinário e acompanhar os movimentos da futura mãe.

Em uma gravidez planejada, cães e cadelas precisam ser avaliados pelo médico antes do
cruzamento, para certificar-se de que está tudo certo no organismo dos dois. Ao escolher
um parceiro, os tutores devem verificar se ele tem todas as vacinas em dia e, no caso do
pedigree, se a certificação está de acordo com as determinações da Confederação
Brasileira de Cinofilia (CBKC) e dos clubes de criadores da raça.

Nos “casamentos mistos” – cruzamentos de cães sem raça definida ou de raças diferentes – o porte dos cachorros precisa ser compatível. Um destemido chihuahua tentará todas as
oportunidades cruzar com uma cadela de grande porte (ou médio), mas é quase certo que
não terá êxito. Uma cadela pequena também não deve ser apresentada a um noivo
grandalhão.

Nas gestações de surpresa, o acompanhamento do veterinário é ainda mais importante.
Caso a cadela tenha escapado para a rua e voltado com sinais de gravidez, é preciso
constatar que ela esteja íntegra, sem infecções ou inflamações. Lembre-se: a sua cadelinha pode ficar grávida a partir dos seis meses de idade. Se você não planeja ser avô tão cedo, é melhor vigiar os passeios e andanças.

As fases

O diagnóstico de gravidez é feito a partir dos 20 dias do cruzamento, a partir de ecografias ou ultrassonografias, ou de 30 dias, a partir de palpação clínica. Com o ultrassom, já é possível saber quantos cachorrinhos estão a caminho, caso tudo dê certo.
Testes sorológicos através da análise da urina ou do sangue podem detectar a gestação,
mas, nestes casos, é impossível determinar o número de fetos que estão se
desenvolvendo, uma informação crucial para o acompanhamento da gestação.

Nos dois meses de gravidez, a cadela apresentará ganho considerável de peso e mudanças sensíveis na silhueta.

No início da gestação, algumas cadelas podem apresentar enjoos e vômitos, mas esta não
é uma característica infalível. Se surgirem estes sintomas, ofereça menos ração a cada vez, mas nunca deixe o comedouro vazio. É possível que a cachorra se torne um pouco mais voraz. Uma vez constatada a gravidez, o veterinário poderá receitar medicamentos antieméticos e alguns suplementos alimentares, de acordo com o estado geral de saúde e as informações prestadas pelos tutores.

A alimentação só deve ser substituída caso surjam alterações nas fezes. Se a cadela tiver
diarreia constante, recomenda-se eliminar a ração úmida. Durante o segundo mês, a futura mãe precisará de fontes extras de proteínas e vitaminas, especialmente no caso de
ninhadas numerosas.

Não ofereça leite para a cadela grávida, a não ser com recomendação médica. É um mito
comum imaginar que a nutriz produzirá mais leite para os filhotes se receber leite durante a gestação. A bebida poderá ser usada em alguns casos, como suplemento de proteína e de alguns nutrientes, como cálcio e vitamina D.

Na fase final – as últimas duas semanas – é muito provável que a cadela coma cada vez
menos. O estômago e os intestinos estão sendo pressionados pelos filhotes e há cada vez
menos espaço para a comida. Ofereça a ração em porções menores, de duas em duas
horas – ou em intervalos mais prolongadas, de acordo com a resposta da pet.

Nas vésperas do parto, a cadela instintivamente procurará se esconder para dar à luz. Se
for possível, não a incomode. Ofereça “ferramentas” para que ela possa construir o ninho:
colchas, almofadas, etc. Ela passará mais tempo sozinha, recusando brincadeiras e
correrias.

Quando os filhotes nascem, as cadelas tornam-se naturalmente um pouco agressivas. Elas
nunca atacarão os tutores, mas ficarão preocupadas e ansiosas a cada vez que alguém
tentar mexer com os filhotes. A mãe é tudo de que as crias precisam, mas não custa nada
trocar as cobertas do ninho e, claro, levar os membros da família para a avaliação clínica.

Um passo a passo

• Durante o cio, que pode durar até dez dias, a cadela aceita a presença do macho e
acontece o cruzamento. Mesmo que alguns óvulos estejam fecundados, esta etapa não se
encerra até que todos os blastocistos estejam alojados no útero.

• Duas semanas depois da fecundação, todos os embriões viáveis estão fixados no
endométrio, desenvolvendo-se, ganhando peso e tamanho. A partir de então, os exames
laboratoriais podem detectar a gravidez.

• Entre 25 e 35 dias de gestação, os embriões estão completos, transformados em fetos. A partir daí, todos os órgãos e tecidos estão formados, necessitando se desenvolver. O
apetite das mães aumenta consideravelmente. Ultrassons já podem ser realizados e um
veterinário experiente consegue descobrir o número de filhotes apenas com a palpação do
abdômen.

• Entre 35 e 50 dias de gestação, os fetos absorvem uma quantidade maior de vitaminas e minerais: eles estão se fortalecendo para encarar a vida aqui fora. Se necessário, a cadela pode receber suplementos nutricionais.

• Por volta dos 50 dias, o esqueleto dos fetos está completo, mas eles ainda precisam
fortalecer os músculos – inclusive o coração. A mãe passa a comer menos, mas a
alimentação precisa ser rica em proteínas, constituintes dos músculos do corpo.

• Uma semana depois, recomenda-se dar um bom banho na futura mãe – ela ficará algumas semanas “sem tempo” para toaletes e questões estéticas. Os filhotes estão a caminho, o ninho já está organizado.

Caso o veterinário não tenha observado problemas sérios na reta final da gravidez, o parto pode ser realizado em casa. Cadelas quase nunca precisam de ajuda, a não ser quando os filhotes são muito grandes ou quando a cintura pélvica das mães é muito estreita. De qualquer forma, deixe o veterinário de sobreaviso.

O parto

Finalmente, chega o grande dia. De acordo com as recomendações médicas, o parto pode
ocorrer em casa ou na clínica veterinária – e, neste último caso, não há muito que os tutores possam fazer além de acompanhar a mãe até a sala de partos.
Se os bebês chegarão ao mundo em casa, é conveniente um rodízio da família humana
para que a cadela não esteja sozinha quando os filhotes resolverem nascer. Não é preciso
ajudar, apenas ficar atento a eventuais problemas – são raros.

Fique atento, porque, apesar de raras, podem ocorrer complicações. A cadela pode não ter contrações, sofrer hemorragias durante o trabalho de parto ou reter um ou mais filhotes (ou apenas a placenta). Corra para o veterinário: na imensa maioria dos casos, é possível salvar a vida da mãe e das crias.

A urgência médica também pode ocorrer no pós-parto. A mãe pode não conseguir romper
os cordões umbilicais e um ou mais filhotes podem ter problemas respiratórios. Neste último caso, tente massagear o tórax, pressionando levemente a parte central do peito.
Os sinais de parto iminente são os seguintes:

  • dilatação da vulva e dos ligamentos da pélvis;
  • recolhimento da mãe – ela se deita no ninho e aparenta distância;
  • irritação da mãe – ela não sabe exatamente o que está acontecendo, por mais filhotes que já tenha tido;
  • relaxamento do útero.

Este relaxamento pode durar até 24 horas, mas, em geral, termina em três ou quatro horas, para dar lugar às contrações, necessárias à expulsão dos filhotes. Nas cadelas maiores, as contrações são visíveis e tornam-se mais fortes até o nascimento do primeiro filhote, ainda ligado pelo cordão umbilical.

Os irmãozinhos são expulsos logo em seguida, em intervalos curtos, juntamente com a
placenta. Uma ninhada de seis filhotes não demora mais que duas horas para nascer. A
mãe instintivamente lambe os filhotes, para estimulá-los a respirar e mamar.
Ela mesma se responsabiliza por cortar o cordão umbilical que, com a placenta, quase
sempre é engolido pela mãe. Não é preciso se preocupar: não se trata de canibalismo, nem de barbárie. Apenas de natureza. Trata-se de um material altamente nutritivo.

Neste momento, se você perceber que a cadela está muito cansada para estimular os
filhotes, prepare-se para a ação. Com um chumaço de algodão embebido em água morna,
limpe as crias, dando início à tarefa pelo focinho, os olhos e as orelhas. Geralmente, a mãe se recupera em poucos minutos.

Cada filhote nasce envolvido em uma placenta, que é rompida pela mãe para permitir a
respiração. Caso ela não consiga rasgar as bolsas, você pode ajudar (mas dê um tempinho – alguns segundos são suficientes – para ela tentar resolver sozinha). A placenta é porosa: apenas dificulta, mas não impede a respiração das crias.

O pós-parto

Assim como acontece entre nós, os cãezinhos dependem integralmente da mãe nos
primeiros dias. Ela é responsável por alimentá-los, limpá-los e manter a temperatura
corporal, ainda não completamente regulada.

O aleitamento é importante também porque, quando mamam, os filhotes recebem
anticorpos do organismo materno, que os preserva de inúmeras doenças que possam estar presentes no ambiente. Nos dois primeiros meses, o leite das mães é a principal proteção, até que os filhotes possam receber as primeiras doses das vacinas.

É um fato raro, mas, se você perceber que a cadela não alimenta nem aquece os filhotes,
esta tarefa caberá a você. Envolva cada um em uma toalha seca e mantenha-os aquecidos. O veterinário indicará uma fórmula alimentar, que deverá ser oferecida em seringas, porque provavelmente eles ainda não saberão sugar (nem foram estimulados pela mãe a fazer este movimento).

Os filhotes podem ser afastados da mãe assim que completam dois meses de idade. Eles já deixam o ninho a partir da terceira semana (alguns são mais curiosos), mas ainda não são independentes. A cadela normalmente vigia os movimentos das crias.